Nunca a expressão "mercado de trabalho" fez tanto sentido quanto na época em que vivemos. Qual o seu comportamento quando vai ao mercado? Você tem uma gama de opções mas não conhece todas. Você verifica marcas, embalagens, o que você conhece, o que já comprou e, se você for de classe média ou menor, você escolhe o que atende custo, beneficio e sua atribuição de valor inconsciente. Parece que o mercado de trabalho se transformou na mesma coisa, principalmente para profissões criativas.
Você faz doutorados, mestrados, MBAs, pós-graduação, cursos de idiomas, cursos de especialização, e para onde vai a sua especialização? Claro, ela será usada, mas ela será valorizada? Não com elogios, mas você terá retorno financeiro deste custo físico, de dinheiro e mental ao longo dos anos? Provavelmente não. Na verdade você é escolhido pelo custo-benefício e valor incosciente atribuído à sua profissão no mercado (por mais que seu trabalho seja primordial, o inconsciente coletivo sempre deixa seu retorno lá embaixo).
Isso vale para todas as profissiões. Tenho amigos engenheiros e arquitetos que ganhavam somente a base do CREA. Nas áreas de TI e design/artes nem se fala, além de não valorizar o especialista, ainda há a exigência de saber tudo o que existe (o famoso "vou contratar um só, mas tem que saber 1,2,3,4..."). Quando me formei, e até hoje, vejo alguns amigos desistirem da profissão por uma opção mais lucrativa. A frustração os levou a concursos públicos, polícia federal, redes de computadores, sair do país, trabalhar como freelance ou consultor, e uma até se tornou médica, mas é coerente esta decisão, não do profissional, mas do mercado?
Quando os melhores profissionais ficarem descontentes e procurarem outros caminhos, o que será das empresas daqui a 10 anos? Dá pra acreditar numa empresa que diz que falta profissional especializado no mercado quando tenho à minha volta dezenas de amigos bons que não conseguem trabalho por que pedem um salário mais alto ou por que são overqualified (qualificados demais para a vaga)?
Será que vamos ter uma máquina do governo inflada de profissionais fantásticos que desistiram da iniciativa privada? Teremos o Brasil como exportador de excelência por que os especialistas não conseguem emprego aqui? Empresas nacionais indo à falência pela falta de qualidade? Falência não. As empresas vão se encher de profissionais baratinhos, "quebra-galho" e reduzir a qualidade. Será que vão exigir do "baratinho" um nível alto de qualidade até fazê-lo chorar? Ou vão pagar um consultor caríssimo (tudo está caminhando pra isso)? Vão se manter em mercados pequenos e deixar as grandes corporações trabalhar grandes mercados (Google, Yahoo, Apple, Viacom, Itau, Totvs, etc.)? E não me venha com essa história de Long Tail, se seus profissionais não são pensadores e sim produtores, você sempre vai ter o mesmo do mesmo e com mesmo nível.
Meus pais não têm curso superior, entretanto, ambos se saíram bem na vida, trabalharam em grandes empresas, tivemos sítios, apartamentos grandes, carros, conforto, etc. Mas será que você consegue esta mesma "construção de vida" nos dias de hoje? Com a sua formação, você consegue alcançar aquilo que seus pais conseguiram, ou melhor, mais ainda, afinal você é "especializado". O que aconteceu? As coisas estão mais caras ou você tem menos dinheiro? Você sente motivação para estudar mais quando você vê as perspectivas do seu mercado de trabalho, ou você já está ponderando entre as alternativas dos amigos citados? Quanto você acha justo ganhar? O quanto você acha que vale o seu nível de especialização e experiência?
Pior é que nas profissões criativas as pessoas já não exigem mais um especialista em uma coisa. Na época do meu pai um profissional entrava como OfficeBoy, estudava, aprendia na empresa, era promovido diversas vezes e podia terminar como diretor. Hoje as empresas querem que você entre já sabendo todos os detalhes de tudo, não querem ensinar nada, pagar curso nenhum. Não importa se você é muito inteligente, tem notas ótimas na faculdade, tem pós graduação, se você não souber um dos softwares ou um dos métodos, você está fora. Claro que a empresa não vai esperar anos para você aprender, mas dói esperar dois meses, três?
A preferência é pelo funcionário-máquina, aquele que produz rápido, de qualquer jeito, mas se ele conhece o software, o método, então tá bom. Ele não tem excelência, mas resolve o problema. Você já pensou se um filme da Pixar fosse feito assim? Que desastre. O filme saiu, o cliente tá feliz, mas poxa... o produto/serviço não fez tanto sucesso e só durou 02 anos... que pena. Vamos fazer outro? Deve ser por isso, vamos fazer outro então. Grito. Por que não chamar especialistas, demorar mais um pouco e fazer certo só uma vez? E não me venha com história de Agile, esse é o método mais mal-interpretado pelas empresas brasileiras.
O pior é que design, arquitetura de informação, design thinking, experiência do usuário e marketing digital têm virado termos hype no mercado de TI. Então por que internamente as empresas não valorizam esses profissionais já que fazem tanta questão de usar termos do mercado criativo como frente, o "slogan" para a venda de seus produtos e serviços?
Eu vejo uma crise em 10 anos, principalmente na área de TI e de ensino. As classes E, D e C estão mudando muito pouco (apesar de seu consumo de eletro-eletrônicos ter subido, seu crescimento está parado). Já as classes B e A estão se transformando em classe C. O que isso diz do futuro da nossa economia? E quando a maioria das pessoas não puder ou não quiser pagar pelas coisas que a gente produz por que não possuem condições? E quando aumentar a inadimplência nas parcelas e financiamentos por que os salários são baixos e por isso são voltados à necessidades básicas?
Pergunto ainda, e quando estas pessoas estiverem estressadas, com problemas de saúde, os hospitais públicos não funcionarem e você tiver diversos funcionários faltando (eu já vi isso acontecer em uma empresa que eu trabalhava com uma moça da faxina)? A solução é pagar plano de saúde pra todo mundo? E para onde vai a criatividade e a capacidade de raciocínio de um profissional frustrado, doente e cansado? Pelo salário que ele ganha, será obrigado a se mudar para longe, imagina a disposição desta pessoa durante o dia após ter passado 04 horas por dia em uma condução.
Hoje a geração Y é empreendedora e alguns acertam em cheio, mas e os que não acertam? E os que precisam trabalhar para as nossas empresas? Eles continuarão se tornando especialistas ou só estudarão o que você quer e pronto? Eles vão se esforçar sem o "chicote" para oferecer bons resultados? Você quer na sua empresa um profissional que tem faculdade, sabe o trabalho, mas não sabe pensar? Ah! A sua solução é colocar apenas uma pessoa que pensa e um monte de operários e estagiários na esteira? Ou melhor, vai pedir a opinião do sobrinho e mandar outros executarem? No final das contas ainda tem os pequenos serviços que você pode contratar para sua empresa em 02 horas e por R$ 100,00.
Não sei de onde veio esta mentalidade do mercado (a prostituição do profissional que aceita qualquer coisa), principalmente a idéia de que algumas profissões devem ganhar menos do que outras (se há risco de vida tudo bem - médico, engenheiro civil - do contrário, por quê?). Mas alguma coisa vai mudar, por que a geração Y que tem boa formação não vai se conformar. Se gasta-se tempo com estudos, aprendizado e experiências, a geração Y vai querer o retorno que merece.
Tenho medo do futuro das empresas brasileiras e da qualidade de seus produtos e serviços. Você pode fazer um concurso, mudar de estado ou sair do país, mas quem ficar vai ver mudanças grandes e inesperadas. Colapso? Crise? Não precisa ir muito longe, veja como era o subúrbio do Rio a 20 anos atrás e veja agora. Ser feliz e ter qualidade de vida é muito bom, mas não se constrói isso sem uma recompensa monetária.
Acho que é o adeus à classe B. A redução das diferenças não é por que o pobre está mais rico, é por que a classe média está mais pobre... Agora responda, você podia ser o "faz-tudo", o handyman do mercado de trabalho. Por que você virou especialista? Sério, faça as contas, parcela do carro, parcela de apartamento em local razoável, montar apartamento, alimentação, saúde, diversão, manutenção do carro, você acha que o mercado te ajuda a bancar essa qualidade de vida que você espera?
O Dilema do Especialista
sábado, setembro 18, 2010
O Seu Líder Estava Certo?
terça-feira, maio 18, 2010
Vejo em diversos locais (não só pelos quais passei), líderes, gestores, coordenadores e diretores discordarem de seus funcionáros e consultores externos. Isto é normal, ninguém possui a mesma opinião e muitas vezes estes atores compartilham o mesmo tipo (ou grau) de conhecimento, o suficiente para levantar um debate saudável que terminará em consenso.
O que me preocupa nestas situações é quando o conhecimento não é igual (profissões diferentes ou grau diferente de conhecimento) ou quando a discussão foge do conhecimento e entra no nível da opinião. Por isso acho que este post serve tanto para líderes quanto para profissionais que precisam trabalhar juntos.
Por mais que um líder tente se impor, oferecer uma opinião sem base ao redor de pessoas com conhecimento só mostra uma inabilidade em gerir pessoas, assim como deixa os "geridos" inseguros e pensando que seu líder é "aquele(a) cara engraçado que só fala besteira", "lá vem ele(a) de novo", "você ouviu o que ele(a) falou ontem?", além das imitações caricatas na hora do almoço (também conhecidas como "chacotas").
Mostre como líder que você tem uma opinião e dê a chance das pessoas provarem por que você está errado(a). Reconheça que você contratou bons profissionais por que eles podem agregar coisas boas à sua empresa, produtos e serviços. Se você julgá-los como sua "equipe operacional", em pouco tempo você perderá estes profissionais para outra empresa (ou vai construir concorrentes). Pior, o profissional com menos de 40 anos não liga de passar só 02 meses na sua empresa.
Se ele estiver desconfortável, ele vai te deixar na mão, você não conseguirá mantê-lo. Isto ocorre principalmente quando o trabalho é desorganizado, repetitivo, rápido demais (quando o profissional não tem tempo para fazer o que é certo por pressão ou exigências absurdas do líder) e/ou quando o descontentamento é diretamente com o líder imediato.
É chato pensar que ainda hoje há líderes que pensam assim. Seus funcionários mais novos não vão te seguir cegamente, vão te contestar e isso é algo que você tem que aceitar nos próximos anos com as novas gerações. Se um líder realmente acredita que nos dias de hoje existe uma hierarquia, que alguém manda em alguma coisa, que existe um méritocrata dando a palavra final, este "chefe" (quem tem chefe é índio) não merece ser líder. A hierarquia foi substituída pela colaboração. Ninguém quer receber ordens, você não pode dizer a eles como fazer, apenas informe que resultados você espera.
Tenho um grupo grande de amigos de uma empresa de TI (a qual não vou citar) que saíram, por causa da visão de seus líderes, para construir seu próprio negócio como startups. Eles não estavam preocupados com o quanto iriam ganhar ou com o nome da empresa no seu currículo, sua preocupação era um ambiente no qual suas idéias são valorizados, reconhecidas e aplicadas.
No momento em que as idéias não são consideradas, ou o funcionário irá te contestar ou não irá lhe falar mais nada, você será o último a saber de tudo pois o profissional sabe que se te procurar, sua opinião não será ouvida. Você sabe a quantidade de conhecimento que os seus funcionários tem e você não usa? Você sabe tudo o que ele estudou (principalmente antes de contestá-lo)?
No momento em que você afirma que seu funcionário está errado e você está certo, tenha certeza de que você pode explicar o porquê. Nunca diga "Não sei dizer, mas não acho isso legal". Não dê respostas subjetivas sobre aquilo que você não conhece (até por que seu conhecimento sobre o assunto pode ser baseado em suposições).
"Todo o homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo" - Schopenhauer
Se você não concordar, não duvide, não humilhe, não fale na frente de outros, não tente trazer informações da internet dizendo o contrário, não faça avaliações negativas e nem fale que outra pessoa externa disse pra você que aquilo não funciona assim. Só quem tem a competência de julgar e debater são profissionais de mesma área (ou similares), e se você já leu alguma coisa sobre os assuntos, abra um debate e não uma briga (pior, é estupidez achar que seus funcionários não conversam entre si pois eles sabem de tudo o que acontece uns com os outros - e na empresa - muitas vezes mais do que você).
Seu papel como líder é gerir o projeto e não tomar as decisões finais de como ele deve ser, isto é papel de quem está abaixo de você, pois eles sabem o que é melhor, sabem como deve ser feito e como irão fazer (contribua, mas lembre-se que a palavra final não é sua).
Em algumas situações você vai ter mesmo mais conhecimento que seus funcionários (de mesma área), em outras você vai precisar contratar pessoas a nível junior ou profissionais "baratinhos" que precisam ser "consertados". Mas se você quiser os melhores do seu lado seja o melhor líder, o melhor gestor de pessoas, o melhor "planejador" de projeto, equacione com o cliente, mas não fique na frente de quem quer fazer a coisa de forma correta. A pior coisa não é o projeto sair ruim, é a sua equipe inteira debandar e te deixar sozinho.
Deixe a subjetividade para os artistas abstratos, pessoas precisam de gestão, não de opiniões vazias. Mas lembre-se que, se seu funcionário disser "- Por que é", "Não sei explicar" ou "Já li em algum lugar", isto não são respostas, não explicam nada, seu funcionário é apenas um "repetidor" do que escuta por aí. Defesas devem ter embasamento (vindo do seu funcionário ou de você).
"We are not the old workers system, we are sparks of change." - Anônimo
Não use seu funcionário como "trampolim" para a sua carreira (ou para a sua empresa), transforme-os em colaboradores: "O sucesso normalmente vem para aqueles que estão ocupados demais para se preocupar com ele" - Henry David Thoreau. Será que você já não passou por isso com seus chefes no passado e está repetindo tudo agora que virou líder? Pense nisso. A sua equipe está gritando, você está escutando?
Leituras Importantes:
Funcionários da Geração Y
Do Your Employees Think Speaking up Is Pointless?
Why Controlling Bosses Have Unproductive Employees
"Quando você ensina um homem a odiar ou temer seu irmão, quando você ensina a ele que outros são menos do que ele por causa de crenças ou ideais que buscam, quando você ensina que aqueles que diferem dele ameaçam sua liberdade, seu emprego ou família, então este aprende a vê-los não como uma comunidade, mas como inimigos a serem confrontados, não com colaboração, mas como conquista. Para serem subjugados e dominados." - Robert Kennedy
P.S. Não torne seu funcionário seu inimigo. Na dúvida, fale para o seu colaborador que o assunto é muito legal e que você acha que seria legal um dia ele fazer uma apresentação para a equipe. Você irá obter mais conhecimento, o restante da equipe irá respeitar mais a opinião daquele profissional (melhores decisões são tomadas em equipe) e você identificará se aquele contratado sabe mesmo do assunto ou não. No final o próprio funcionário ficará feliz de ser valorizado e poder compartilhar aquilo que sabe.
Empatia: As Pessoas são Diferentes
domingo, abril 11, 2010
Esta semana, estava eu no consultório médico aguardando uma consulta com uma doutora a qual frequento há algum tempo, quando esta me pediu que tomasse conta de um menino de mais ou menos 7 anos cujo pai foi comprar algo fora enquanto ela terminava os exames. O menino deveria esperá-lo. Como eu não era o próximo na fila de consultas (e ela não possui secretária), fiquei tomando conta do menino na sala de espera.
Começar uma conversa com crianças nunca é fácil. Você não sabe que idade elas têm, do que gostam, e até mesmo até que ponto o seu conhecimento do mundo infantil bate com a realidade (sem mostrar uma visão estereotipada do que é ser criança nesta década, os "Millenniums").
Como eu fiquei calado durante algum tempo jogando tetris no meu celular, o garoto eventualmente parou em pé ao meu lado e ficou olhando. Não demorou muito soltou o comentário "- Caraca, manero...". Não sou desatualizado. Conheço o mercado de games e sei que meu celular não é nenhum iPhone ou PSP, portanto a primeira coisa que me passou pela cabeça foi por que aquele garoto de 7 anos achava "manero" um jogo 2D, pior que 8 bits, cujas funcionalidades são básicas e monótonas demais para entreter uma criança de "atenção dividida" no século XXI.
Imaginei que ele estava era tentando puxar conversa, pois não tinha nada mais o que fazer, daí entrei no jogo social. Perguntei se ele tinha videogame em casa. Ele comentou que tinha o Wii e o Nintendo DS, mas que jogava mais o DS (a geração "Millennium" só fala DS, sem Nintendo). Comecei então a perguntar que jogos ele tinha e inseri na conversa a minha própria experiência com games baseado no filho do meu primo (Wii) e na minha recente aquisição, o PlayStation 3 (PS3).
O menino ficou empolgado. Uma hora ele parou e falou: "- Você não parece com nenhum adulto que eu conheço!". Nessa hora me passou pela cabeça que, ou eu sou infantil demais (ou geek), ou tenho um forte interesse pelo comportamento da geração "Millennium" ao ponto de me envolver com sua cultura (sempre conversei bem com pessoas 10 anos mais velhas, então ser infantil não parecia o caso). Depois pensei em tudo que absorvi entre os 20 e 30 de idade anos e percebi que eu lembrava, mesmo que não estivesse imerso, da maioria das coisas que outras gerações, hoje com 15, 20, 25 anos, fizeram em seu tempo de criança e de pré-adolescente (hoje tenho 30 anos).
Depois da conversa de games, o menino ficou curioso sobre com o que eu trabalhava. Tentei ser didático inserindo minha função (Arquiteto de Informação) no universo de conhecimento dele. Quando falei que era designer, a primeira coisa que passou na cabeça dele foi que eu fazia personagens de games e desenhos (queria entender a âncora de conhecimento prévio que o levou a isso). Expliquei que era mais ou menos isso, que na verdade eu trabalhava com TV interativa e internet, para deixar um site mais legal de usar, bonito, etc.
Perguntei então se ele já havia visto o "i" de interatividade no Cartoon Network. Ele disse que não tinha TV a cabo em casa, mas que já tinha visto na casa da tia, mas nunca usou. Daí eu expliquei que se ele apertasse o botão vermelho do controle remoto, o Cartoon mostraria jogos, brincadeiras e outras coisas que são parecidas com as coisas que eu faço no trabalho. Ele ficou super empolgado e disse "- Muito legal! Bom saber... Quando for na minha tia eu vou tentar" (para o terror de sua tia eu não disse que é pago).
Logo depois entramos em uma conversa de desenhos do Cartoon e da Nickelodeon, Star Wars (Clone Wars 3D), Brandy e O Senhor Bigodes, Bob Esponja e outros (que eu também curto, adoro animação com roteiros bem trabalhados), e mais uma vez ele mandou: "- Caraca, você não é como os outros adultos.". Daí começamos a contorcer os dedos e as expressões faciais com aquelas brincadeiras de criança do tipo "Você consegue fazer isso?". Logo após o pai chegou e ele foi embora.
Confesso ser um viciado em informação e gostar de coisas geek, mas nunca tive o comportamento frenético de nerds e geeks que compram mídias alucinadamente, gastam rios de dinheiro em livros e brinquedos (depois de adulto) e gastam tempo demais nessas atividades de escapismo. Entretanto, minha rápida busca por informação e atualização me mantém por dentro de assuntos dos mais variados mesmo que eu não dedique um tempo considerável a me envolver com atividades que não são da minha geração, da minha classe social, do meu gênero ou cultura (por que não ouvir música alemã, ler um autor beatnik ou ver um filme de Angola?).
Isto me faz pensar em todo meu trabalho como designer de experiência e de interação, nesta empatia com "o outro" para criar produtos e serviços que realmente são necessários, que importam e com os quais as pessoas criam relações. Quando você critica os novos "Guerra nas Estrelas" e uma criança de 8 anos conhece Star Wars de trás pra frente, o filme pode não ter uma boa história, mas foi o tom ideal para uma empresa atingir públicos-alvo específicos que possuíam certa expectativa do que iriam ver, ou seja, foram criados novos consumidores por pessoas que tentaram conhecer estes consumidores e acertaram.
Sentar em uma cadeira para tomar decisões de produtos e serviços não começa com uma boa idéia, não começa com desenvolvimento, não começa com parcerias, não começa com "mão-na-massa". O surgimento de um novo produto começa com o cliente, o que você sabe sobre o cliente, como ele age, com oele se relaciona, do que ele precisa, para que ele precisa, e se ele tiver o que ele precisa, como ele acha que pode usá-lo.
Vejo startups desenvolvendo produtos e gastando dinheiro de clientes por 01 ano, 02 anos (ou mais), sem ter nada no mercado (nem mesmo um teaser), sem conhecer absolutamente nada de seu cliente final, lidando com estereótipos, arquétipos falsos daquilo que acham que o cliente final irá pensar. Isso nunca deu certo. A não ser que você seja único e seu produto muito difícil de replicar, não adianta utilizar métodos ágeis, scrum, brainstorms, teorias fantásticas e processos de gerenciamento da última moda. Seu produto será um fracasso em pouco tempo se o usuário final não entrar na jogada.
Na última pesquisa qualitativa da qual participei, todos ficaram impressionados em como as classes C e D tinham forte conhecimento de novas tecnologias. Eu já sabia disso há algum tempo por lidar com indivíduos de diferentes tipos no meu dia-a-dia e me supreendeu que outros não soubessem desta característica. O exemplo é aceitável, as pessoas não são obrigadas a passar pela minha experiência, mas estereótipos são derivados de modelos mentais cujas conclusões nunca podem ser utilizadas para desenolver um produto ou serviço, neste caso foi ótimo que outros descobrissem, de forma prática, essa novidade.
Quando Edgar Schein propôs aos seus alunos que fossem às ruas e conversassem com mendigos, prostitutas, sem-teto, travestis e qualquer outro indivíduo que fosse radicalmente diferente do que eles estavam acostumados, estes percebem a quantidade de suposições que temos a tendência de fazer sobre a vida das pessoas sem conhecê-las e o quanto isso é prejudicial se determinados nichos são o seu consumidor/usuário final (até mesmo na sua vida pessoal).
As pessoas não têm a mesma bagagem que você, não carregam as mesmas experiências, e as dificuldades que elas tem (e a forma delas interpretarem o mundo) não é sinal de burrice, ignorância, falta de educação ou qualquer outra suposição que você possa fazer sem conhecê-las (ou com "achismos"). Modelos mentais têm que ser trabalhados pois não adianta os líderes de sua empresa exigirem certas funcionalidades de seu produto/serviço, pois não conseguirão exigir que o cliente final as use. Consulte quem realmente vai usar, apague suas idéias, torne-se o outro, o diferente.
O que vejo são pessoas usando esta premissa como mantra, achando bonito, trocando artigos, elogiando empresas estrangeiras, mas nunca aplicando (na verdade, no fundo, não acreditam, pois quando alguém de fora tenta aplicar é logo censurado por questões de custo, tempo ou líderes inexperientes que se dizem experientes apenas pelo tempo e locais por que passaram). O seu líder pode ser o seu modelo, mas ele não é o seu "guru", e o certo é ele dividir as decisões com a equipe, principalmente considerando aqueles da equipe que tem um conhecimento maior sobre os assuntos em pauta.
Todos sabemos que o projeto é um ciclo que vai e volta, que gera retrabalho (refactorying), que descobre-se coisas novas a todo momento, mas se sua equipe está fazendo e refazendo muitas vezes, alguma coisa está errada, e é bem provável que o erro esteja no início de todo o projeto, principalmente nos métodos de gestão, no inicio do projeto, na ignorância de quem é o cliente (mesmo que este seja uma criança).
O primeiro passo de qualquer projeto é entender, entender o cliente que te contrata, as preocupações da sua equipe, as relações com os seus fornecedores e como tudo isso se encaixa nas necessidades de quem vai usar aquilo que você quer colocar no mercado. Não vacile, entenda as pessoas, faça grandes amigos, crie marcas de sucesso e conquiste muitos clientes felizes.
Para os que ficam frustrados com a posição de seus chefes e empresas só posso recomendar o enfrentamento, bata o pé, explique, traga coisas novas, prove, mostre por que eles estavam errados e você estava certo. Se você não provar o seu ponto-de-vista nos métodos de trabalho você já foi derrotado por aqueles que se acham "certos" (por mais errados que eles estejam).
Crianças Levadas a Sério
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Os filmes infantis a partir dos anos 90 tomaram uma direção "boboca" e um pouco sem sentido... Não sei se devido às leis, a psicólogos (o que duvido muito por ser um grupo muito bem instruído) ou a simples dedução não cientifica de políticos incompetentes e pessoas que acham que conhecem a mente das crianças, mas a verdade é que os filmes se tornaram "idiotas", passivos e feitos sob a ótica protetora adulta sob o mundo infantil.
Claro que você não é mais criança, e é quase impossível lembrar seus desejos e sonhos infantis (ou como isso te influenciava), mas não é muito dificil lembrar de filmes como Goonies, Garotos Perdidos, Gremlins, A Lenda, Labirinto, até mesmo Poltergeist que te fez se esconder debaixo da cama. Estes filmes pensavam nas crianças como seres com idéias próprias, sentimentos, opiniões, vontades, e não como o ser "boboca" que deve só ver bonequinhos dançando e pulando ao som de músicas com letras pobres...
Não tiro o mérito de programas como Barney, Backyardigans, Teletubbies, princesas, entre outros, mas se eu tivesse mais de 6 anos e fosse obrigado a ver essas coisas, eu realmente iria ficar com raiva. Na verdade a criança não fica com raiva por que não entende. Poucas vão reclamar com você sobre o conteúdo dos filmes ou da TV pois estão extremamente condicionadas a aceitar aquele tipo de programação. Quando o filho do meu primo viu Senhor dos Anéis aos 5 anos de idade, os pais de seus coleguinhas achavam aquilo um absurdo enquanto o garoto trazia a curiosidade para os seus coleguinhas de escola.
Nós mesmos víamos filmes e desenhos de melhor qualidade quando crianças, e mesmo não entendendo diversas coisas, nos divertíamos muito, trazemos boas lembranças e até hoje descobrimos coisas novas que naquela época não percebemos. Esta descoberta sumiu, deu lugar a produções "mastigadas" que explicam tudo e privam a criança do pensar (já viu os DVDs da Xuxa? Já foi ver uma animação no cinema sem ser as da Pixar ou da série Shrek?). Até mesmo filmes como a Fantástica Fábrica de Chocolates de Tim Burton teve sua visão deturpada em relação ao livro para criar algo mais "aceitável" para o público infantil (na visão dos adultos é claro).
Você não deve tratar a criança como um adulto pois seus modelos mentais ainda não foram formados, mas isso não significa que esta deve ser tratada de forma estereotipada, as crianças devem ser levadas a sério na concepção de produtos áudio-visuais para que estas mídias sejam responsáveis pela sua própria construção como individuo. A descoberta do amor, do sexo, da morte, das amizades, do perigo, da aventura, nós recebems isso nos anos 80... Hoje o que as crianças recebem é como dançar, pular, rodar, cantar, como comprar "brinquedos fofinhos", robozinhos falantes e imitar golpes japoneses (as que se importam, pois a maioria está mais preocupada com games). Adoro todas essas atividades e esses gadgets, mas eles não podem ser 100% do aprendizado de cultura pop de uma criança.
Mas este quadro está mudando. Fimes como Spiderwick e Ponte para Terabitia vêm mudando a ótica adulta para concepções mais fantásticas da imaginação infantil. Após 15 anos de filmes bobos, as produções voltam com temas familiares ao cotidiano real dos pequenos como a escola, os amigos, as descobertas, a morte de pessoas próximas, etc. Afinal, Disney já mostrava uma visão sombria iconoclasta de princesas e dragões muito antes de Caverna do Dragão ou dos novos desenhos deste século, e ninguém se tornou mau ou cresceu perturbado por causa disso...
Criança deve ser levada a sério no cinema e novas mídias sociais! Filmes e TV devem trazer boas memórias e descobertas e não um passatempo "educativo" bobo. Acordem para um novo mundo, não sejam analfabetos sociais que escondem o conhecimento e descobertas das crianças com medo que elas mudem muito a rotina das velhas idéias...
Sobre Deus
domingo, junho 25, 2006
"Quando eu era jovem, eu tinha muitas idéias sobre o que Deus era. Hoje entendo que não tenho consciência o suficiente para saber o que este conceito significa. Sei que sou um com o grande ser que me criou e me trouxe para cá e que criou as galáxias, o universo etc. Mas não é difícil a religião se aproveitar disso. Muitos dos problemas que a religião produziu através dos séculos vêm da concepção que a religião tem de Deus, ou seja, algo distinto de nós a quem devemos adorar, cultuar, agradar, esperando ser premiado no fim da vida. Deus não é isso, isto é uma blasfêmia.
Deus é uma coisa muito mais ampla, e apenas é muito associado à organização religiosa. E a religião assombra o mundo... Fez mal às mulheres, às pessoas oprimidas, ao World Trade Center. Ainda assim temos no mesmo ponto um resumo de uma grande ciência. A ciência que mais se aproximou para explicar o ensinamento de Jesus de que uma semente de mostarda era maior que o Reino dos Céus foi a física quântica.
Hoje temos uma incrível tecnologia. Imãs anti-gravitacionais, campos magnéticos, energia ponto zero, realidade virtual... Mesmo assim ainda temos um conceito retrógrado e supersticioso de Deus. As pessoas entram na linha quando ameaçadas por essas "sentenças cósmicas", pelo "castigo eterno". Mas Deus não é assim. E quando você começa a questionar tais retratações de Deus, as pessoas te taxam de agnóstico, um subversivo da ordem social. Deus é maior do que a maior das fraquezas do ser humano. E Deus precisa transcender a grandiosidade da habilidade humana de forma incrível para ser visto em seu absoluto esplendor? Como um homem ou uma mulher pode pecar contra algo tão supremo? Como pode uma pequena unidade de carbono na terra, no quintal da via Láctea, trair o Deus todo poderoso? É impossível. O tamanho da arrogância é o tamanho do controle daquelas que criam Deus à sua própria imagem.
Qual é o único planeta na via Láctea em que seus habitantes estão impregnados e subjugados pelas religiões? Você sabe o porquê disto? Como as pessoas estabelecem o que é certo e o que é errado? Se eu fizer isto, serei castigado por Deus. Se fizer aquilo, serei recompensado. Isso é uma descrição muito pobre que tenta mapear um caminho para seguirmos na vida, mas com resultados lamentáveis. Pois realmente não existe algo como "bom" ou "mau". Dessa forma estamos julgando as coisas de uma forma muito superficial.
Isso quer dizer que está tudo liberado e você está livre para pecar? Não!! Simplesmente significa que temos de aprimorar nosso entendimento com o que estamos lidando aqui. Existem coisas que eu faço e sei que me evoluem. Existem outras coisas que não vão me evoluir. Mas não há "bom" ou "mau". Deus não vai punir você por ter feito isso ou aquilo. Não existe um deus condenando as pessoas, senão, todos seriam Deuses, pois todos criticam uns aos outros. Da mesma forma que Deus é um nome utilizado pela massa para explicar as experiências que temos no mundo que de alguma forma são transcendentais, que de alguma forma são sublimes.
Eu não faço idéia do que Deus seja exatamente... Contudo, eu acredito que Deus exista e que é muito real. Só não sei como definir Deus... Ver Deus como uma pessoa, ou como algo ... bem, eu não sei como explicar. Pedir para um ser humano explicar o que é Deus é o mesmo que pedir para o peixe explicar a água em que nada. Somos pessoas que estão construindo a fé, e temos que seguir por este caminho até o dia em que iremos amar o intangível da mesma forma que amamos nossos vícios. A única maneira de estar sempre bem comigo mesmo não é cuidando só do que sou, mas sim cuidando da minha mente, questionamentos e interpretações. "