Nunca a expressão "mercado de trabalho" fez tanto sentido quanto na época em que vivemos. Qual o seu comportamento quando vai ao mercado? Você tem uma gama de opções mas não conhece todas. Você verifica marcas, embalagens, o que você conhece, o que já comprou e, se você for de classe média ou menor, você escolhe o que atende custo, beneficio e sua atribuição de valor inconsciente. Parece que o mercado de trabalho se transformou na mesma coisa, principalmente para profissões criativas.
Você faz doutorados, mestrados, MBAs, pós-graduação, cursos de idiomas, cursos de especialização, e para onde vai a sua especialização? Claro, ela será usada, mas ela será valorizada? Não com elogios, mas você terá retorno financeiro deste custo físico, de dinheiro e mental ao longo dos anos? Provavelmente não. Na verdade você é escolhido pelo custo-benefício e valor incosciente atribuído à sua profissão no mercado (por mais que seu trabalho seja primordial, o inconsciente coletivo sempre deixa seu retorno lá embaixo).
Isso vale para todas as profissiões. Tenho amigos engenheiros e arquitetos que ganhavam somente a base do CREA. Nas áreas de TI e design/artes nem se fala, além de não valorizar o especialista, ainda há a exigência de saber tudo o que existe (o famoso "vou contratar um só, mas tem que saber 1,2,3,4..."). Quando me formei, e até hoje, vejo alguns amigos desistirem da profissão por uma opção mais lucrativa. A frustração os levou a concursos públicos, polícia federal, redes de computadores, sair do país, trabalhar como freelance ou consultor, e uma até se tornou médica, mas é coerente esta decisão, não do profissional, mas do mercado?
Quando os melhores profissionais ficarem descontentes e procurarem outros caminhos, o que será das empresas daqui a 10 anos? Dá pra acreditar numa empresa que diz que falta profissional especializado no mercado quando tenho à minha volta dezenas de amigos bons que não conseguem trabalho por que pedem um salário mais alto ou por que são overqualified (qualificados demais para a vaga)?
Será que vamos ter uma máquina do governo inflada de profissionais fantásticos que desistiram da iniciativa privada? Teremos o Brasil como exportador de excelência por que os especialistas não conseguem emprego aqui? Empresas nacionais indo à falência pela falta de qualidade? Falência não. As empresas vão se encher de profissionais baratinhos, "quebra-galho" e reduzir a qualidade. Será que vão exigir do "baratinho" um nível alto de qualidade até fazê-lo chorar? Ou vão pagar um consultor caríssimo (tudo está caminhando pra isso)? Vão se manter em mercados pequenos e deixar as grandes corporações trabalhar grandes mercados (Google, Yahoo, Apple, Viacom, Itau, Totvs, etc.)? E não me venha com essa história de Long Tail, se seus profissionais não são pensadores e sim produtores, você sempre vai ter o mesmo do mesmo e com mesmo nível.
Meus pais não têm curso superior, entretanto, ambos se saíram bem na vida, trabalharam em grandes empresas, tivemos sítios, apartamentos grandes, carros, conforto, etc. Mas será que você consegue esta mesma "construção de vida" nos dias de hoje? Com a sua formação, você consegue alcançar aquilo que seus pais conseguiram, ou melhor, mais ainda, afinal você é "especializado". O que aconteceu? As coisas estão mais caras ou você tem menos dinheiro? Você sente motivação para estudar mais quando você vê as perspectivas do seu mercado de trabalho, ou você já está ponderando entre as alternativas dos amigos citados? Quanto você acha justo ganhar? O quanto você acha que vale o seu nível de especialização e experiência?
Pior é que nas profissões criativas as pessoas já não exigem mais um especialista em uma coisa. Na época do meu pai um profissional entrava como OfficeBoy, estudava, aprendia na empresa, era promovido diversas vezes e podia terminar como diretor. Hoje as empresas querem que você entre já sabendo todos os detalhes de tudo, não querem ensinar nada, pagar curso nenhum. Não importa se você é muito inteligente, tem notas ótimas na faculdade, tem pós graduação, se você não souber um dos softwares ou um dos métodos, você está fora. Claro que a empresa não vai esperar anos para você aprender, mas dói esperar dois meses, três?
A preferência é pelo funcionário-máquina, aquele que produz rápido, de qualquer jeito, mas se ele conhece o software, o método, então tá bom. Ele não tem excelência, mas resolve o problema. Você já pensou se um filme da Pixar fosse feito assim? Que desastre. O filme saiu, o cliente tá feliz, mas poxa... o produto/serviço não fez tanto sucesso e só durou 02 anos... que pena. Vamos fazer outro? Deve ser por isso, vamos fazer outro então. Grito. Por que não chamar especialistas, demorar mais um pouco e fazer certo só uma vez? E não me venha com história de Agile, esse é o método mais mal-interpretado pelas empresas brasileiras.
O pior é que design, arquitetura de informação, design thinking, experiência do usuário e marketing digital têm virado termos hype no mercado de TI. Então por que internamente as empresas não valorizam esses profissionais já que fazem tanta questão de usar termos do mercado criativo como frente, o "slogan" para a venda de seus produtos e serviços?
Eu vejo uma crise em 10 anos, principalmente na área de TI e de ensino. As classes E, D e C estão mudando muito pouco (apesar de seu consumo de eletro-eletrônicos ter subido, seu crescimento está parado). Já as classes B e A estão se transformando em classe C. O que isso diz do futuro da nossa economia? E quando a maioria das pessoas não puder ou não quiser pagar pelas coisas que a gente produz por que não possuem condições? E quando aumentar a inadimplência nas parcelas e financiamentos por que os salários são baixos e por isso são voltados à necessidades básicas?
Pergunto ainda, e quando estas pessoas estiverem estressadas, com problemas de saúde, os hospitais públicos não funcionarem e você tiver diversos funcionários faltando (eu já vi isso acontecer em uma empresa que eu trabalhava com uma moça da faxina)? A solução é pagar plano de saúde pra todo mundo? E para onde vai a criatividade e a capacidade de raciocínio de um profissional frustrado, doente e cansado? Pelo salário que ele ganha, será obrigado a se mudar para longe, imagina a disposição desta pessoa durante o dia após ter passado 04 horas por dia em uma condução.
Hoje a geração Y é empreendedora e alguns acertam em cheio, mas e os que não acertam? E os que precisam trabalhar para as nossas empresas? Eles continuarão se tornando especialistas ou só estudarão o que você quer e pronto? Eles vão se esforçar sem o "chicote" para oferecer bons resultados? Você quer na sua empresa um profissional que tem faculdade, sabe o trabalho, mas não sabe pensar? Ah! A sua solução é colocar apenas uma pessoa que pensa e um monte de operários e estagiários na esteira? Ou melhor, vai pedir a opinião do sobrinho e mandar outros executarem? No final das contas ainda tem os pequenos serviços que você pode contratar para sua empresa em 02 horas e por R$ 100,00.
Não sei de onde veio esta mentalidade do mercado (a prostituição do profissional que aceita qualquer coisa), principalmente a idéia de que algumas profissões devem ganhar menos do que outras (se há risco de vida tudo bem - médico, engenheiro civil - do contrário, por quê?). Mas alguma coisa vai mudar, por que a geração Y que tem boa formação não vai se conformar. Se gasta-se tempo com estudos, aprendizado e experiências, a geração Y vai querer o retorno que merece.
Tenho medo do futuro das empresas brasileiras e da qualidade de seus produtos e serviços. Você pode fazer um concurso, mudar de estado ou sair do país, mas quem ficar vai ver mudanças grandes e inesperadas. Colapso? Crise? Não precisa ir muito longe, veja como era o subúrbio do Rio a 20 anos atrás e veja agora. Ser feliz e ter qualidade de vida é muito bom, mas não se constrói isso sem uma recompensa monetária.
Acho que é o adeus à classe B. A redução das diferenças não é por que o pobre está mais rico, é por que a classe média está mais pobre... Agora responda, você podia ser o "faz-tudo", o handyman do mercado de trabalho. Por que você virou especialista? Sério, faça as contas, parcela do carro, parcela de apartamento em local razoável, montar apartamento, alimentação, saúde, diversão, manutenção do carro, você acha que o mercado te ajuda a bancar essa qualidade de vida que você espera?
O Dilema do Especialista
sábado, setembro 18, 2010
O Seu Líder Estava Certo?
terça-feira, maio 18, 2010
Vejo em diversos locais (não só pelos quais passei), líderes, gestores, coordenadores e diretores discordarem de seus funcionáros e consultores externos. Isto é normal, ninguém possui a mesma opinião e muitas vezes estes atores compartilham o mesmo tipo (ou grau) de conhecimento, o suficiente para levantar um debate saudável que terminará em consenso.
O que me preocupa nestas situações é quando o conhecimento não é igual (profissões diferentes ou grau diferente de conhecimento) ou quando a discussão foge do conhecimento e entra no nível da opinião. Por isso acho que este post serve tanto para líderes quanto para profissionais que precisam trabalhar juntos.
Por mais que um líder tente se impor, oferecer uma opinião sem base ao redor de pessoas com conhecimento só mostra uma inabilidade em gerir pessoas, assim como deixa os "geridos" inseguros e pensando que seu líder é "aquele(a) cara engraçado que só fala besteira", "lá vem ele(a) de novo", "você ouviu o que ele(a) falou ontem?", além das imitações caricatas na hora do almoço (também conhecidas como "chacotas").
Mostre como líder que você tem uma opinião e dê a chance das pessoas provarem por que você está errado(a). Reconheça que você contratou bons profissionais por que eles podem agregar coisas boas à sua empresa, produtos e serviços. Se você julgá-los como sua "equipe operacional", em pouco tempo você perderá estes profissionais para outra empresa (ou vai construir concorrentes). Pior, o profissional com menos de 40 anos não liga de passar só 02 meses na sua empresa.
Se ele estiver desconfortável, ele vai te deixar na mão, você não conseguirá mantê-lo. Isto ocorre principalmente quando o trabalho é desorganizado, repetitivo, rápido demais (quando o profissional não tem tempo para fazer o que é certo por pressão ou exigências absurdas do líder) e/ou quando o descontentamento é diretamente com o líder imediato.
É chato pensar que ainda hoje há líderes que pensam assim. Seus funcionários mais novos não vão te seguir cegamente, vão te contestar e isso é algo que você tem que aceitar nos próximos anos com as novas gerações. Se um líder realmente acredita que nos dias de hoje existe uma hierarquia, que alguém manda em alguma coisa, que existe um méritocrata dando a palavra final, este "chefe" (quem tem chefe é índio) não merece ser líder. A hierarquia foi substituída pela colaboração. Ninguém quer receber ordens, você não pode dizer a eles como fazer, apenas informe que resultados você espera.
Tenho um grupo grande de amigos de uma empresa de TI (a qual não vou citar) que saíram, por causa da visão de seus líderes, para construir seu próprio negócio como startups. Eles não estavam preocupados com o quanto iriam ganhar ou com o nome da empresa no seu currículo, sua preocupação era um ambiente no qual suas idéias são valorizados, reconhecidas e aplicadas.
No momento em que as idéias não são consideradas, ou o funcionário irá te contestar ou não irá lhe falar mais nada, você será o último a saber de tudo pois o profissional sabe que se te procurar, sua opinião não será ouvida. Você sabe a quantidade de conhecimento que os seus funcionários tem e você não usa? Você sabe tudo o que ele estudou (principalmente antes de contestá-lo)?
No momento em que você afirma que seu funcionário está errado e você está certo, tenha certeza de que você pode explicar o porquê. Nunca diga "Não sei dizer, mas não acho isso legal". Não dê respostas subjetivas sobre aquilo que você não conhece (até por que seu conhecimento sobre o assunto pode ser baseado em suposições).
"Todo o homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo" - Schopenhauer
Se você não concordar, não duvide, não humilhe, não fale na frente de outros, não tente trazer informações da internet dizendo o contrário, não faça avaliações negativas e nem fale que outra pessoa externa disse pra você que aquilo não funciona assim. Só quem tem a competência de julgar e debater são profissionais de mesma área (ou similares), e se você já leu alguma coisa sobre os assuntos, abra um debate e não uma briga (pior, é estupidez achar que seus funcionários não conversam entre si pois eles sabem de tudo o que acontece uns com os outros - e na empresa - muitas vezes mais do que você).
Seu papel como líder é gerir o projeto e não tomar as decisões finais de como ele deve ser, isto é papel de quem está abaixo de você, pois eles sabem o que é melhor, sabem como deve ser feito e como irão fazer (contribua, mas lembre-se que a palavra final não é sua).
Em algumas situações você vai ter mesmo mais conhecimento que seus funcionários (de mesma área), em outras você vai precisar contratar pessoas a nível junior ou profissionais "baratinhos" que precisam ser "consertados". Mas se você quiser os melhores do seu lado seja o melhor líder, o melhor gestor de pessoas, o melhor "planejador" de projeto, equacione com o cliente, mas não fique na frente de quem quer fazer a coisa de forma correta. A pior coisa não é o projeto sair ruim, é a sua equipe inteira debandar e te deixar sozinho.
Deixe a subjetividade para os artistas abstratos, pessoas precisam de gestão, não de opiniões vazias. Mas lembre-se que, se seu funcionário disser "- Por que é", "Não sei explicar" ou "Já li em algum lugar", isto não são respostas, não explicam nada, seu funcionário é apenas um "repetidor" do que escuta por aí. Defesas devem ter embasamento (vindo do seu funcionário ou de você).
"We are not the old workers system, we are sparks of change." - Anônimo
Não use seu funcionário como "trampolim" para a sua carreira (ou para a sua empresa), transforme-os em colaboradores: "O sucesso normalmente vem para aqueles que estão ocupados demais para se preocupar com ele" - Henry David Thoreau. Será que você já não passou por isso com seus chefes no passado e está repetindo tudo agora que virou líder? Pense nisso. A sua equipe está gritando, você está escutando?
Leituras Importantes:
Funcionários da Geração Y
Do Your Employees Think Speaking up Is Pointless?
Why Controlling Bosses Have Unproductive Employees
"Quando você ensina um homem a odiar ou temer seu irmão, quando você ensina a ele que outros são menos do que ele por causa de crenças ou ideais que buscam, quando você ensina que aqueles que diferem dele ameaçam sua liberdade, seu emprego ou família, então este aprende a vê-los não como uma comunidade, mas como inimigos a serem confrontados, não com colaboração, mas como conquista. Para serem subjugados e dominados." - Robert Kennedy
P.S. Não torne seu funcionário seu inimigo. Na dúvida, fale para o seu colaborador que o assunto é muito legal e que você acha que seria legal um dia ele fazer uma apresentação para a equipe. Você irá obter mais conhecimento, o restante da equipe irá respeitar mais a opinião daquele profissional (melhores decisões são tomadas em equipe) e você identificará se aquele contratado sabe mesmo do assunto ou não. No final o próprio funcionário ficará feliz de ser valorizado e poder compartilhar aquilo que sabe.
Empatia: As Pessoas são Diferentes
domingo, abril 11, 2010
Esta semana, estava eu no consultório médico aguardando uma consulta com uma doutora a qual frequento há algum tempo, quando esta me pediu que tomasse conta de um menino de mais ou menos 7 anos cujo pai foi comprar algo fora enquanto ela terminava os exames. O menino deveria esperá-lo. Como eu não era o próximo na fila de consultas (e ela não possui secretária), fiquei tomando conta do menino na sala de espera.
Começar uma conversa com crianças nunca é fácil. Você não sabe que idade elas têm, do que gostam, e até mesmo até que ponto o seu conhecimento do mundo infantil bate com a realidade (sem mostrar uma visão estereotipada do que é ser criança nesta década, os "Millenniums").
Como eu fiquei calado durante algum tempo jogando tetris no meu celular, o garoto eventualmente parou em pé ao meu lado e ficou olhando. Não demorou muito soltou o comentário "- Caraca, manero...". Não sou desatualizado. Conheço o mercado de games e sei que meu celular não é nenhum iPhone ou PSP, portanto a primeira coisa que me passou pela cabeça foi por que aquele garoto de 7 anos achava "manero" um jogo 2D, pior que 8 bits, cujas funcionalidades são básicas e monótonas demais para entreter uma criança de "atenção dividida" no século XXI.
Imaginei que ele estava era tentando puxar conversa, pois não tinha nada mais o que fazer, daí entrei no jogo social. Perguntei se ele tinha videogame em casa. Ele comentou que tinha o Wii e o Nintendo DS, mas que jogava mais o DS (a geração "Millennium" só fala DS, sem Nintendo). Comecei então a perguntar que jogos ele tinha e inseri na conversa a minha própria experiência com games baseado no filho do meu primo (Wii) e na minha recente aquisição, o PlayStation 3 (PS3).
O menino ficou empolgado. Uma hora ele parou e falou: "- Você não parece com nenhum adulto que eu conheço!". Nessa hora me passou pela cabeça que, ou eu sou infantil demais (ou geek), ou tenho um forte interesse pelo comportamento da geração "Millennium" ao ponto de me envolver com sua cultura (sempre conversei bem com pessoas 10 anos mais velhas, então ser infantil não parecia o caso). Depois pensei em tudo que absorvi entre os 20 e 30 de idade anos e percebi que eu lembrava, mesmo que não estivesse imerso, da maioria das coisas que outras gerações, hoje com 15, 20, 25 anos, fizeram em seu tempo de criança e de pré-adolescente (hoje tenho 30 anos).
Depois da conversa de games, o menino ficou curioso sobre com o que eu trabalhava. Tentei ser didático inserindo minha função (Arquiteto de Informação) no universo de conhecimento dele. Quando falei que era designer, a primeira coisa que passou na cabeça dele foi que eu fazia personagens de games e desenhos (queria entender a âncora de conhecimento prévio que o levou a isso). Expliquei que era mais ou menos isso, que na verdade eu trabalhava com TV interativa e internet, para deixar um site mais legal de usar, bonito, etc.
Perguntei então se ele já havia visto o "i" de interatividade no Cartoon Network. Ele disse que não tinha TV a cabo em casa, mas que já tinha visto na casa da tia, mas nunca usou. Daí eu expliquei que se ele apertasse o botão vermelho do controle remoto, o Cartoon mostraria jogos, brincadeiras e outras coisas que são parecidas com as coisas que eu faço no trabalho. Ele ficou super empolgado e disse "- Muito legal! Bom saber... Quando for na minha tia eu vou tentar" (para o terror de sua tia eu não disse que é pago).
Logo depois entramos em uma conversa de desenhos do Cartoon e da Nickelodeon, Star Wars (Clone Wars 3D), Brandy e O Senhor Bigodes, Bob Esponja e outros (que eu também curto, adoro animação com roteiros bem trabalhados), e mais uma vez ele mandou: "- Caraca, você não é como os outros adultos.". Daí começamos a contorcer os dedos e as expressões faciais com aquelas brincadeiras de criança do tipo "Você consegue fazer isso?". Logo após o pai chegou e ele foi embora.
Confesso ser um viciado em informação e gostar de coisas geek, mas nunca tive o comportamento frenético de nerds e geeks que compram mídias alucinadamente, gastam rios de dinheiro em livros e brinquedos (depois de adulto) e gastam tempo demais nessas atividades de escapismo. Entretanto, minha rápida busca por informação e atualização me mantém por dentro de assuntos dos mais variados mesmo que eu não dedique um tempo considerável a me envolver com atividades que não são da minha geração, da minha classe social, do meu gênero ou cultura (por que não ouvir música alemã, ler um autor beatnik ou ver um filme de Angola?).
Isto me faz pensar em todo meu trabalho como designer de experiência e de interação, nesta empatia com "o outro" para criar produtos e serviços que realmente são necessários, que importam e com os quais as pessoas criam relações. Quando você critica os novos "Guerra nas Estrelas" e uma criança de 8 anos conhece Star Wars de trás pra frente, o filme pode não ter uma boa história, mas foi o tom ideal para uma empresa atingir públicos-alvo específicos que possuíam certa expectativa do que iriam ver, ou seja, foram criados novos consumidores por pessoas que tentaram conhecer estes consumidores e acertaram.
Sentar em uma cadeira para tomar decisões de produtos e serviços não começa com uma boa idéia, não começa com desenvolvimento, não começa com parcerias, não começa com "mão-na-massa". O surgimento de um novo produto começa com o cliente, o que você sabe sobre o cliente, como ele age, com oele se relaciona, do que ele precisa, para que ele precisa, e se ele tiver o que ele precisa, como ele acha que pode usá-lo.
Vejo startups desenvolvendo produtos e gastando dinheiro de clientes por 01 ano, 02 anos (ou mais), sem ter nada no mercado (nem mesmo um teaser), sem conhecer absolutamente nada de seu cliente final, lidando com estereótipos, arquétipos falsos daquilo que acham que o cliente final irá pensar. Isso nunca deu certo. A não ser que você seja único e seu produto muito difícil de replicar, não adianta utilizar métodos ágeis, scrum, brainstorms, teorias fantásticas e processos de gerenciamento da última moda. Seu produto será um fracasso em pouco tempo se o usuário final não entrar na jogada.
Na última pesquisa qualitativa da qual participei, todos ficaram impressionados em como as classes C e D tinham forte conhecimento de novas tecnologias. Eu já sabia disso há algum tempo por lidar com indivíduos de diferentes tipos no meu dia-a-dia e me supreendeu que outros não soubessem desta característica. O exemplo é aceitável, as pessoas não são obrigadas a passar pela minha experiência, mas estereótipos são derivados de modelos mentais cujas conclusões nunca podem ser utilizadas para desenolver um produto ou serviço, neste caso foi ótimo que outros descobrissem, de forma prática, essa novidade.
Quando Edgar Schein propôs aos seus alunos que fossem às ruas e conversassem com mendigos, prostitutas, sem-teto, travestis e qualquer outro indivíduo que fosse radicalmente diferente do que eles estavam acostumados, estes percebem a quantidade de suposições que temos a tendência de fazer sobre a vida das pessoas sem conhecê-las e o quanto isso é prejudicial se determinados nichos são o seu consumidor/usuário final (até mesmo na sua vida pessoal).
As pessoas não têm a mesma bagagem que você, não carregam as mesmas experiências, e as dificuldades que elas tem (e a forma delas interpretarem o mundo) não é sinal de burrice, ignorância, falta de educação ou qualquer outra suposição que você possa fazer sem conhecê-las (ou com "achismos"). Modelos mentais têm que ser trabalhados pois não adianta os líderes de sua empresa exigirem certas funcionalidades de seu produto/serviço, pois não conseguirão exigir que o cliente final as use. Consulte quem realmente vai usar, apague suas idéias, torne-se o outro, o diferente.
O que vejo são pessoas usando esta premissa como mantra, achando bonito, trocando artigos, elogiando empresas estrangeiras, mas nunca aplicando (na verdade, no fundo, não acreditam, pois quando alguém de fora tenta aplicar é logo censurado por questões de custo, tempo ou líderes inexperientes que se dizem experientes apenas pelo tempo e locais por que passaram). O seu líder pode ser o seu modelo, mas ele não é o seu "guru", e o certo é ele dividir as decisões com a equipe, principalmente considerando aqueles da equipe que tem um conhecimento maior sobre os assuntos em pauta.
Todos sabemos que o projeto é um ciclo que vai e volta, que gera retrabalho (refactorying), que descobre-se coisas novas a todo momento, mas se sua equipe está fazendo e refazendo muitas vezes, alguma coisa está errada, e é bem provável que o erro esteja no início de todo o projeto, principalmente nos métodos de gestão, no inicio do projeto, na ignorância de quem é o cliente (mesmo que este seja uma criança).
O primeiro passo de qualquer projeto é entender, entender o cliente que te contrata, as preocupações da sua equipe, as relações com os seus fornecedores e como tudo isso se encaixa nas necessidades de quem vai usar aquilo que você quer colocar no mercado. Não vacile, entenda as pessoas, faça grandes amigos, crie marcas de sucesso e conquiste muitos clientes felizes.
Para os que ficam frustrados com a posição de seus chefes e empresas só posso recomendar o enfrentamento, bata o pé, explique, traga coisas novas, prove, mostre por que eles estavam errados e você estava certo. Se você não provar o seu ponto-de-vista nos métodos de trabalho você já foi derrotado por aqueles que se acham "certos" (por mais errados que eles estejam).
Gostar de Fazer vs. Trabalhar
sábado, outubro 25, 2008
Quando eu estava no segundo grau vi muitas pessoas que não sabiam o que fazer, alguns que faziam alguma idéia e outros que tinham plena certeza. Hoje em dia vejo que passar por vários cursos universitários nos 3 primeiros anos depois do segundo grau é uma opção muito boa para quem quer escolher a profissão, inclusive você pode assistir aulas em universidades federais e estaduais sem estar inscrito. Mas este não é o tema de hoje.
O tema de hoje é a sua escolha, aquilo que você gosta, aquilo que você quer fazer. Eu sou designer por profissão, mas posso dizer que sou ilustrador e jornalista por vocação (nunca fiz jornalismo mas se gosto de escrever, poderia ter escolhido este caminho). Ainda no meu colégio, havia um amigo que queria fazer Belas Artes de qualquer jeito por que gostava de desenhar. Eu acabei convencendo-o a fazer Programação Visual, mas a questão é, aquilo que você gosta de fazer, não necessariamente vai ser aquilo com o que você vai gostar de trabalhar!
Não adianta você gostar de desenhar e achar que vai ser artista, designer ou arquiteto, não adianta gostar de filmes de tribunal e querer ser advogado, não adianta fazer engenharia mecânica achando que vai fazer robô, não adianta fazer veterinária por que gosta de animais, não adianta estudar letras por que gosta de ler, assim como não adianta fazer um curso por que tem as melhores oportunidades de concurso (até por que todos os seus colegas de profissão vão te considerar um incompetente que estudou só para o concurso). Você tem realmente que gostar de trabalhar com aquilo e não só gostar de ver, de fazer como hobby ou achar bonito ou "legal".
As profissões são muito mais do que isso. Entrar em um curso por que tem relação com o que você gosta de fazer no seu tempo livre pode te frustrar depois... Nas áreas criativas isto é ainda pior. É como diz Luli Radfahrer: "Se a questão financeira pesar, mas pesar muito, abandone a área. Você sempre poderá ser um bom advogado ou cirurgião plástico com uma coleção de belos quadros em casa". E isso pode ser expandido para quadros, livros e até os robôs. A diferença é que nas áreas criativas (como artes, ensino, publicidade, marketing e informática) todo mundo acha que "conhece" o seu trabalho e que sabe o quanto deve te pagar.
É por causa desta visão equivocada que todos se sentem na posição de avaliar a qualidade do seu conhecimento (mesmo que você não seja designer isso se aplica). Neste caso você deve mostrar no seu trabalho algo além do seu hobby, além do que você gosta de fazer no tempo livre, deve mostrar uma visão de mudança... Mas infelizmente, isso não vai te garantir um bom emprego (pelo contrário, as empresas brasileiras são "cabeças-dura", teimosas e de mente fechada). Ao investir em conhecimento conceitual e pesquisa, você se transforma em um talento, um multidisciplinar, um pesquisador nato, um inquieto, um descobridor, diferente do tecnocrata corporativo a que estamos acostumados.
Mas isso dá muito mais trabalho do que os cursos de design, direito, medicina, engenharia, arquitetura, infromática, etc, irão te mostrar nas salas de aula ou mesmo do que aqueles livros e documentários que você gosta de ler e ver. Até mesmo os autodidatas têm problemas com isso por não conseguirem organizar o seu pensamento, procurando muitas vezes se firmar fortemente em uma única idéia sobre ferramentas e técnicas da moda ao invés de procurar o conhecimento conceitual não atrelado à prática técnica (lembre-se técnicas passam, idéias ficam).
Vi muitos amigos da área de design se frustrarem com a profissão por que achavam que iam desenhar bastante e perceberam que isso era 10% do trabalho. Alguns são profissionais bem estabelecidos em programação, redes de computadores, atores, desenhistas de moda, marketing, tem até uma menina em medicina, mas muitos terminaram quase 5 anos de curso para depois pular para outra coisa diferente.
Por isso abram os olhos seja qual for a sua profissão! Você chega em casa estressado? Você não tem "saco" pra se atualizar ou cria empecilhos psicológicos de tempo e cansaço? Você pensa em fazer concurso ou ir pra uma empresa grande só por que é mais fácil trabalhar lá (ou não)? Pense bem... Repito, aquilo que você gosta de ver e fazer no tempo livre, não é necessariamente aquilo com que você vai gostar de trabalhar.
E trabalhar é viver todos os dias, a todo instante, o conhecimento, não o conhecimento técnico, mas o conceitual aplicado na prática. Você se preocupa em saber muitas técnicas de gestão, muitos softwares gráficos, muitas tecnologias, muitas técnica de cirurgias, decorar muitas leis? Você já está estressado e no caminho errado, e mais, esqueceu que a criatividade e o ser humano são as partes mais importantes da aceitação do seu trabalho.
Quando você realmente gosta do que você trabalha você vira um talento. E sim, ninguém contrata talentos no Brasil. Você tem grandes expectativas para sua carreira, não aceita salários baixos, contesta seus chefes (de uma forma amigável, mas muitos não gostam), briga pelas suas idéias, aceita conselhos até do porteiro (pois como profissional criativo, qualquer que seja sua área, acredita no ponto-de-vista de todos) e não está muito preocupado em correr para conseguir um emprego pois tem dezenas de contatos por fora.
E mais, a cada vez que você se atualiza isso piora pois as pessoas não querem pagar o que você vale e isto também abre margem para você cobrar o quanto quiser pois quando estes precisarem de você, você vai cobrar muito caro para manter-se durante algum tempo. Ou seja, o mercado de trabalho brasileiro criou uma relação com os profissionais altamente capacitados onde os dois lados saem perdendo.
As empresas acabam contratando o profissional "prostituto", o "sobrinho", que não faz um trabalho de qualidade mas ganha menos e não contesta, e por outro lado contrata consultores terceirizados que cobram caro. Essa é a grande diferença entre o Brasil e os países de 1º mundo. Eles pagam o quanto você vale e toda nova idéia é bem-vinda.
A verdade é que o talento tem horror ao chicote, a ficar preso, a trabalhar de 8 da manhã às 7 da noite (sem contar horas extras), a não poder visitar um museu, restaurante, praia ou fazer um curso no meio do dia durante a semana útil. O talento já muito adulto quer levar seus filhos na escola antes de trabalhar, quer pegá-los a noite, quer nadar, quer ir a academia, e quando você priva o talento de todas as coisas que criam o "ócio criativo" ou melhor, o relaxamento físico e mental, a satisfação da vida, ele simplesmente não produz ou não trás a qualidade de tudo que ele estudou para dentro da sua empresa (até mesmo por que certos ambientes de trabalho são claustrofóbicos, tensos, metódicos, com muitos conflitos e com pessoas com medo de serem passadas pra trás e que desconfiam de todos).
As empresas clássicas no Brasil, e a maioria das instituições ligadas ou não ao governo, ainda querem o profissional "adestrado", o tecnocrata que trabalha demais, que não vive, que não tem qualidade de vida, que dá o sangue pela empresa, que só estuda aquilo que é preciso para a empresa, que não é interdisciplinar, que não faz correlações com outras ãreas e que o dia que vacilar pode ser trocado.
A criatividade, inquietude, as boas idéias, o pesquisador nato (que quer testar coisas novas), o contestador, este não é bem visto, o que leva muitos bons profissionais frustrados a procurarem o serviço público, freelas, ou trabalhar no exterior pois têm garantia de um salário bom e não precisam se preocupar com ser mandado embora. A era da exploração vai acabar pois o talento brasileiro que não trabalha para o governo vai virar freelance, seja ele advogado, engenheiro, designer, arquiteto, etc.
Mas abrir os olhos do leitor não vai mudar esta situação. Uma coisa é um procedimento de trabalho, outro é quando o procedimento vira cultura, e esta imposição do mercado brasileiro já virou cultura... Até mesmo as empresas estrangeiras querem abrir suas filiais na América Latina pelo perfil do profissional que trabalha muito, ganha pouco, não contesta e é facilmente subsituido.
Da mesma forma que o brasileiro é associado ao sexo, samba, futebol, agora ele é reconhecido mundialmente como o profissional especializado que custa "baratinho"... E abram seus olhos empresas! Se essa cultura for perpetuada serão criados concorrentes em potencial que não têm nada a perder e são altamente capacitados. Não quis contratá-los? Agora é preciso concorrer com eles pelos mesmos clientes.
Existem 3 tipos de profissionais capacitados, os Game Changers, os Games Players e os Game blockers. Os Changers são inquietos, criativos e contestadores. Os Players são os tecnocratas que chegam na hora, saem na hora e só sabem aquilo que foram treinados para fazer.
Os Blockers são os pessimistas que apesar de sua formação acham que nada vai dar certo e só reclamam do emprego. O talento é um Changer, e "gostar de fazer no tempo livre" não vai te ajudar a ser um Changer e sim um Player, um Blocker. Lembre-se que pessoas como Bill Gates, Steve Jobs e Richard Branson não têm diploma, apenas boas idéias e uma irritação constante que os leva a mudar tudo e fazer de novo de uma forma diferente.
"I been working so hard
Keep punching my card
Eight hours, for what?
Oh, tell me what I got
I get this feeling
That time's just holding me down..."
- Kenny Logins (Footloose) -
Goste daquilo com que você trabalha, certifique-se que você sai de casa feliz e volta sorrindo, que você vê seus filmes, lê seus livros não-profissionais, leva seu filho na escola, dorme um pouco mais um dia no meio da semana, passeia sem compromisso, enfim, certifique-se que o trabalho faz parte de sua vida e não é só aquele lugar que você vai todo dia e desliga quando sai de lá.
Pergunte-se, onde você está? Está feliz na sua profissão? Conseguiria ser autônomo? Conseguiria dar uma virada e mudar de profissão? Quer fazer um concurso? Procure qualidade de vida! As possibilidades são infinitas, e por isso termino este texto com uma transcrição do filme Quem Somos Nós (odeio filmes e livros de auto-ajuda, mas esse dá pra engolir):
"Por quê continuamos a recriar a mesma realidade? Por quê continuamos tendo os mesmos relacionamentos? Por quê temos o mesmo tipo de emprego repetidamente? Neste mar infinito de possibilidades que existem à nossa volta, por que recriamos as mesmas realidades? Não é incrível que temos opções e potenciais existentes e não temos consciência deles?
É possível estarmos tão condicionados à nossa rotina, tão condicionados à forma como criamos nossas vidas, que compramos a idéia de que não temos controle algum sobre como direcioná-la? Fomos condicionados a crer que o mundo externo é mais real que o interno. É justamente ao contrário. O que acontece dentro de nós é que vai criar o que acontece lá fora. "
As pessoas querem te ensinar a ser feliz com as coisas que você não pode mudar. E eu afirmo você pode mudar sim, é só se empenhar para ter uma vida melhor e feliz.
Ilustrações de Bill Watterson
Trabalhando Demais Pra Quê?
quinta-feira, outubro 16, 2008
Este tópico e o anterior se caracterizam mais por considerar o trabalho dos artistas liberais (designers, arquitetos, desenhistas, etc.) e profissionais de informática, mas acho que pode ser absorvido de forma qualitativa por qualquer tipo de profissional liberal. Todos passamos por isso na nossa juventude e quando paramos para respirar o tempo passou e nós nem vimos...
Continuando o tópico anterior sobre querer saber tudo, igualmente existem pessoas que mesmo trabalhando não sabem dizer não. Querem pegar todas as tarefas do mundo, lidar com todas as áreas da empresa, carregar toda a responsabilidade pelo sucesso e pelos erros das metas. Da mesma forma o autônomo (lê-se freelance) resolve aceitar todos os trabalhos que tem disponível, às vezes sem poder fazer, e outras vezes se estressando por ficar até altas horas trabalhando, se movimentando de um local para outro para visitar clientes (muitas vezes distantes) e perdendo um precioso tempo de descanso, de ver tv, de ir ao cinema, de ler um livro (não profissional), de dormir. Será que vale a pena? A ganância vai dar um retorno significativo? Você trabalha demais e cai no "ostracismo corporativo"?
E mais uma vez os "especialistas" da internet (formados ou não) vão te dizer, relaxa! Principalmente se você confia na sua educação, currículo e força de vontade. As possibilidades são infinitas, e se matar de trabalhar só vai afetar a sua saúde. Como dizia na parede de um viaduto aqui do Rio: "O homem perde sua saúde para ganhar dinheiro e depois gasta tentando recuperá-la". Hoje têm-se a possbilidade de ser autônomo (dedicado), de fazer concursos, de trabalhar meio período, o mundo está aí fora para que você faça sua vida sem deixar que o estresse domine o seu dia-a-dia trazendo cansaço, e o cansaço com certeza te impossibilita de crescer. Como diria Domenico De Masi, é o ócio criativo, são os momentos de descanso e de lazer que te fazem pensar melhor, raciocinar, criar, ter idéias.
Para ilustrar a questão, um evento real em um hospício francês. O médico Philippe Pinel resolve tirar as correntes normalmente usadas com os loucos na instituição, então o politico George Couthon diz a ele: "- Ah! Então cidadão, és tu mesmo louco ao querer liberta-los das correntes?". Pinel responde calmamente: "- Tenho a convicção de que estes alienados não são intratáveis senão porque se lhes priva de ar e de liberdade", o que Couthon retruca, "Temo que sejas vítima de sua presunção". Será mesmo? É presunção assumir que o ser humano, sejam quais forem as suas condilões, precisa de liberdade? (e nem vou entrar no mérito da Mais Valia de Marx).
Você com certeza já passou por momentos em que a vida está tão corrida que você não consegue fazer nada (ou até mesmo se atualizar na própria profissão). Você chega tão cansado em casa que não aguenta mais ver o seu programa preferido na TV, você para de alugar filmes pois sabe que vai dormir durante o DVD, não sai na sexta a noite pois sábado você quer dormir até tarde, não sai sábado pois precisa terminar aquele trabalho por fora que você aceitou fazer ou quer estudar para uma prova que só vai acontecer daqui a 6 meses. E aí pronto. Você foi fisgado pela rotina do cansaço. Você não existe mais, quem existe é o trabalho, são os estudos. E não estou nem falando daquilo que você gosta, você pode estar insistindo em algo que você nem tem muito apreço... Este é o recado, faça o que pode, dentro dos seus limites, dê grande valor ao seu tempo livre!
Saber tudo é impossível!
terça-feira, outubro 14, 2008
Você é um expert na sua área de trabalho? Não importa sua profissão, você já achou que deveria abraçar o mundo? Esta é a sensação pela qual muitos profissionais passam nos primeiros anos após terminar a faculdade (aqueles que decidem por não fazer um concurso público...). Quando comecei a fazer design achava fantástico saber modelagem 3D, design gráfico, design de produto, marketing, projeto (daqueles com MS Project e Mind Manager), entre outras funções relacionadas ao trabalho do designer...
O problema é que descobri que é impossível! Chega um ponto em que a frustração é muito grande. De repente você percebe que sabe bastante de tudo mas não sabe o suficiente, e ainda, perdeu seu lazer procurando milhões de informações e esqueceu que o necessário mesmo era focar em uma atuação e se divertir no tempo livre. E acredite, você nunca vai achar que sabe o sufuciente e tudo vai virar uma bola de neve de ansiedade, neuras e preocupações constantes com o futuro.
Isto é um aviso para quem está começando ou para quem ainda não teve este insight. Se você trabalha com informática, áreas criativas como design, arquitetura, ilustração, publicidade, ou mesmo área de humanas como administração, marketing e psicologia, não perca o rumo querendo saber tudo, não pare para ler livros e artigos de outras áreas de sua profissão por mais de meia hora ao invés de "caçar" coisas que são realmente relevantes para o que você gosta e quer fazer. Pense naquela pergunta de entrevistas: "Onde você se vê daqui a 5 anos?". Você irá descobrir que responder esta pergunta é mais dificil do que você imagina... (a não ser que você seja um freelance muito bem sucedido).
Aprenda o que você precisa, não se preocupe com o mercado de trabalho, uma hora você será chamado por ser o expert daquela área que você escolheu. Se seguir as tendências você irá enlouquecer imaginando o que você ainda não sabe, que tem gente melhor que você, que os jovens com menos de 20 anos sabem muito, etc. Relaxe! Foque! Acerte o ponto e insista. A insistência é a melhor forma de ser o melhor na sua profissão. Saber tudo de tudo não vai te levar a lugar nenhum. É como diz Luli Radfahrer em outro contexto: "Um mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor."
Veja bem os seus professores de faculdade e pós-graduação. Eles participam de bancas de centenas de alunos, mas todos têm suas respectivas pesquisas e não ficam estudando sobre o tema de cada aluno para avaliar melhor. Aqui vai meu conselho, seja fantástico naquilo que você realmente gosta! "Se nunca dizes não, o teu sim não vale nada." Mais sobre ansiedades profissionais em: http://saberviver_psicologia.blogs.sapo.pt/tag/trabalho