Quando eu viajava para a Bahia com os amigos em época de carnaval, apesar de me sair bem, eu não tinha o mesmo desempenho que meus amigos mostravam na folia. Eles diziam que eu parecia um lorde inglês. Não por ser convencido ou pomposo, mas pelas coisas que eu conversava, jeio que falava e sendo educado demais. Talvez seja por isso que eu gosto de ver este tipo de filme, por mais que a história seja cliché.
Talvez incoscientemente eu tenha o desejo de ter nascido em uma época de inocência (nem era tanto assim) como a era vitoriana ou os anos 60 (antes da revolução sexual), e ter sido o homem pelo qual as meninas ficam fascinadas pelo estilo de vida libertário, moderno, inteligente e louco.
P
or que clichés? Por que a história da menina tímida e controlada pelo pai (Alfred Molina) que se apaixona pelo homem mais velho, experiente e inconsequente já foi feita em dezenas de filmes, centenas de séries e milhares de livros. Nada é novo. A história, a ambientação, os bailes de jazz, a cultura francesa, a sociedade inglesa, as escolas rígidas, tudo está lá.
Mas o que faz do filme tão bom? Boa pergunta. O alarde feito em torno da produção não é justificado visto o que é apresentado, entretanto a atuação, figurino e fotografia tem seus méritos. Até a adaptação do roteiro ficou boa, só poderiam ter feito um "twist" melhor para que a história não fosse uma sequencia de coisas previsíveis.
Educação (An Education) é a história de Jenny, uma menina de 16 anos (intepretada por Carey Mulligan de 24 anos), que vive com o pai que insiste que ela passe para Oxford, e a mãe dividida entre apoiar os gostos da filha ou os caprichos do marido. Jenny toca violoncelo, adora música e ama francês, mas isso não irá ajudá-la a entrar em Oxford, portanto ela tem que melhorar suas notas em latim.
Após um concerto na escola onde ela toca violoncelo, Jenny conhece David, um homem mais velho do qual ela desconfia no incio, mas logo fica fascinada com seus amigos e estilo de vida. Parece que David não quer nada, apenas apreentar o mundo de verdade para a menina, mas aos poucos Jenny descobre que não é a primeira vez que ele faz isso.
Peter Sarsgaard tem aquela cara que serve tanto para galã de filme de época quanto para vilão de filme do Bruce Willis, mas apesar de sua ótima atuação, é um daqueles atores estilo Selto Mello, ou seja, não importa o personagem, é sempre o mesmo tipo de atuação, é sempre igual.
Já Carey eu não posso falar muito pois não vi muitos trabalhos dela, entretanto não há como não elogiar a "beleza inglesa" da novata, sua aparência em roupas de época e expressões de raiva e tristeza fazem com que você queria ter uma mulher assim do seu lado. Me lembra Larisa Oleynick do seriado Alex Mack.
Na minha opinião quem roubou a maioria das cenas foi Danny (Dominic Cooper) e a bela Helen (Rosamund Pike), o amigo de David e a namorada burra de Danny. Alfred Molina (a.k.a. Dr Octopus) e Emma Thompson são atores de alto escalão que foram mal aproveitados neste filme. Senti falta também de uma força "Pink Floydiana" de revolta, de luta contra o sistema escolar inglês e suas tradições e rigidez. Parece que quando seu sonho pode não dar certo, Jenny simplesmente volta a fazer o que todo mundo espera dela pedindo de joelhos para ser aceita de volta no sistema.
Isso realmente não ensina nada às novas gerações que precisam lutar contra as tradições, contra preceitos culturais que ficam arraigados nas raízes da sociedade e que nosso pais e avós (principalmente quando não têm instrução) trazem no insconsciente como se fosse lei. Você não deve se machucar, ferir os outros e se destruir, o restante tudo é válido. Não existe lei quando o objetivo é ser feliz (e se tiver que visitar Paris, por que não?).
Os cinemas do Grupo Estação nas salas de Botafogo, RJ, melhoraram seus assentos. Vale a pena conferir. Está bem melhor e mais confortável. Ah, e o cheiro de carpete dos assentos de cinemas antigos continua lá.
Crítica Filme: Educação
sexta-feira, março 12, 2010
Crítica: Bons Costumes
sexta-feira, novembro 06, 2009
Parece que os melhores filmes que vejo sempre são aqueles que eu descubro quando vou ao cinema sem intenção, sem planejar, de surpresa. Hoje tive que esperar alguns amigos por duas horas e para matar o tempo resolvi entrar no Espaço de Cinema do Grupo Estação para ver Bons Costumes (Easy Virtue), um filme de época na melhor tradição inglesa.
Eu tinha duas horas, portanto tinha que ser o filme que estivesse começando naquele minuto. Li no cartaz que era com a Jessica Biel e comprei meu ingresso (Jessica não teve lá um inicio de carreira muito bom, mas por que não testá-la mais uma vez se O Ilusionista foi tão bom?).
Apesar de desde meus 8 anos de idade a minha relação com o inglês ter sido 80% dentro da cultura americana, me fascina o jeito inglês do inicio do século 20. A pomposidade, o sotaque aristocrata e é claro, as mentes livres que ousavam transgredir a sociedade (muito comum nos E.U.A., mas raro em terras britânicas). Este filme não tem nada de novo. Você já viu a aristocracia inglesa em diversos filmes, Adorável Julia, Howard's End, Muito Barulho por Nada, mas é sempre um prazer ver no cinema interpretações dignas de palcos shakesperianos e fazendo valer tudo o que Stanislavski escreveu.
Você vai ver o choque da cultura americana free spirit, a mãe manipuladora (pode-se dizer que a sociedade inglesa era matriarcal por suas rainhas?), as "irmãs de Cinderela" que nunca conseguem nada e são vencidas pela outsider, e o marido infeliz que é indiferente (mas não covarde) aos problemas do orgulho besta do restante da família.
Há muito tempo aguardava ver Dorian Grey com Ben Barnes (o príncipe Caspian de Narnia) e Colin Firth, mas velos juntos em mais um filme foi uma boa surpresa. Kristin Scott Thomas (A Outra - Boleyn Girl) deixa de lado o papel da mulher bonita sedutora da década de 90 e amadurece em papéis que até então eram dados para mulheres como Helen Mirren. O elenco de apoio, criados, vizinhos, trazem um toque de humor e de sarcasmo digno dos melhores textos de Oscar Wilde.
Não preciso nem falar muito de Jessica Biel. São aqueles filmes que te fazem perguntar se essas mulheres são assim mesmo na vida real. Um deleite visual ver as roupas de época no corpo curvilíneo da namorada de Justin Timberlake.
O filme valeu cada centavo (ainda mais agora sem carteira de estudante), e eu ainda saí do cinema pensando em tudo o que eu posso usar para forçar meu sotaque britânico. Um respiro em meio aos blockbusters que vi essa semana. Rosane Gofman, Tablado e CAL que me perdoem, mas se um dia os atores brasileiros não alcançarem esta excelência, tanto no talento quanto no ensino e aprendizado, sempre teremos os "atores de novela" fazendo cinema e teatro sem ter a mínima noção do que é interpretar para um público que quer mais cultura, e não mais do senso comum que atrai massas.