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Crítica: Dúvida

sábado, fevereiro 21, 2009

A formação do ator americano é realmente incrível. Não estou dizendo das caras bonitas que eles encontram na rua para fazer filmes de ação ou comédias românticas, mas sim da maioria dos atores que hoje trabalham no primeiro "front" do cinema americano. A versatilidade deles é impressionante, passando desde as comédias e thrillers até os dramas e aventuras.

Fiquei realmente impressionado com a qualidade dos filmes que vi hoje e posso dizer que o Oscar neste domingo vai ser dificil, quase uma surpresa. Normalmente isso não acontece comigo, mas ambos os filmes eu consegui total imersão dentro do universo das histórias. Claro que o primeiro filme, Casamento de Rachel, é um daqueles dramas americanos de fazer chorar ou que ficam martelando aquela idéia batida de "igualdade", que já virou "chavão", uma fórmula garantida de concorrer a Oscars.

Entretanto o filme Dúvida já vem com uma abordagem diferente. Ambos os filmes tratam de intolerância, aceitação, entender o "outro" e refletir sobre o comprotamento do ser humano como ser instintivo, não racional, porém Dúvida traz mais do que isso, traz a desconfiança, o apego a tradições, a rigidez de pessoas que vivem no passado e temem as liberdades do futuro.

Meryl Streep interpreta uma freira rígida que dirige uma escola católica conservadora. Ao longo do filme ela começa a desconfiar do padre da paróquia e cria um círculo de acusações que em momento algum do filme podem ser provadas. Tudo fica no ar para o espectador interpretar da forma que quiser. Vale destacar a interpretação de Amy Adams. Da mesma forma que Anne Hathaway em Casamento de Rachel, Amy impressiona por ser flexível nos seus personagens.

Ela consegue interpretar a princesa de um filme infantil (Encantada), uma coadjuvante no péssimo Smallville, uma personagem incrível em The Office, outra em Miss Pettigrew e ainda uma freira em uma drama tão incrível quanto Dúvida. Da comédia ao drama "cabeça", do pastelão "descerebrado" ao filme cult, Amy é uma daquelas atrizes perfeitas que podem escolher papéis onde querem, diferente de Jennifer Aniston, Jessica Alba, Jessica Biel, etc. Uma futura Meryl Streep talvez? Quem sabe....


Philip Seymour Hoffman sofre da mesa benção. Ele consegue passar de drogado junkie em comédias non sense até Truman Capote e ainda chegar a um padre suspeito de pedofilia. Simplesmente um ator incrível digno de herdar o manto de Pacino, DeNiro, Justin Hoffmann e Jack Nicholson.

O filme não é feito para emocionar e sim refletir sobre os valores da rigidez, tradições e manias de instituições que dominam a sociedade mantendo-a sobre o domínio do medo, medo de errar, medo de não ser aceito, medo de mudar, medo de fugir, medo de falar o que sentimos, entre outras "moléstias" psíquicas das quais sofre o ser humano devido a ignorância de seus contemporâneos. A tendência do ser humano é julgar o certo e o errado sem pensar em todos as variáveis que permeiam uma situação. Julgar é mais fácil do que entender, e condenar é mais simples ainda, mesmo que suas conjecturas não sejam verdade.

O padre parece ser o único a entender que este mal cada vez mais se espalha na sociedade, de forma que todas as aberturas para o bom convívio entre as pessoas acaba se diluindo em dogmas retrógrados, falta de confiança e "fofocas" descabidas. A garota jovem é idealista e quer acreditar naquilo que é certo, mas a freira superior acaba deixando-a confusa. Neste filme o espectador é a freira jovem interpretada por Amy, que desenvolve um conflito interno sobre o que é certo e o que é errado, ou seja, todas as coisas têm uma razão para acontecer, sejam elas certas ou erradas, e cabe a nós ir fundo na verdade compreendendo os fatores que funcionaram como estopim das situações.

Vale a pena ver o filme Dúvida de forma a refletir e ver a maravilhosa atuação do trio e das crianças, quase como o teatro americano/inglês (por que o teatro brasileiro se perdeu nas comédias de duplo sentido). Recomendo e adiciono a minha lista de favoritos.

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Morre Bettie Page

sábado, dezembro 13, 2008

Numa época em que apenas fotos de mulheres com roupas íntimas já abalava o mais puritano dos garotos, onde a sensualidade era mais discreta e os meninos ainda se preocupavam em esconder dos pais que tinham certas revistas em casa, onde era considerado imoral comprar revistas de mulher de lingerie naquela estante do canto das lojas, nesta época surgiu Bettie Page. Hoje é muito normal para adultos e crianças ver grandes outdoors ou peças de propaganda pela cidade com a Gisele Bündchen de calcinha e sutiã em poses sensuais, mas isso nos anos 50 era papo para muita polêmica.

Estava aí uma época de inocência onde era legal ser um garoto e desfrutar daquela cumplicidade com os amigos, da descoberta do sexo nas revistas "proibidas" e liberar a curiosidade reprimida. Hoje as ciranças já nascem vendo na tv, bancas e jornais as fotos mais explícitas possíveis... perdeu-se muito daquela magia em torno das pin ups pois tudo agora é mostrado com fotos que até o Kamasutra duvida e com o melhor que a ferramenta Photoshop pode retocar.

Nascida em 1923, Bettie Page, como mostrado no maravilhoso filme de Mary Harron (The Notorious Bettie Page, 2005), foi a segunda de seis filhos de Walter Roy Page e a Edna Mae Pirtle. A família vivia em condicões financeiras precárias não repousando por muito tempo no mesmo lugar, com a queda da bolsa em 1929 a situacão piorou. Os pais se divorciaram em 1932.

No ano anterior Walter havia sido preso por alcoolismo e desordem. Edna Pirtle se estabeleceu em dois empregos, enviando Bettie e duas de suas irmãs para um orfanato por um ano. Aos quize anos de idade de Bettie fora violentada pelo próprio pai, quando ele havia voltado a morar com a família. Em idade tenra Page conheceu responsabilidades duras e aprendeu a tomar suas próprias decisões.

Entre o coro da igreja e o salão de beleza que Edna trabalhava, Bettie mantinha seu tempo costurando. Bettie foi considerada uma estudante excepcional. Mostrou sempre interesse pelo cinema e a vida de modelo. Coordenou um grupo de arte dramática e se formou Bacharel em Artes no Peabody College em 1943. Pernas a parte, seu trabalho fotográfico é um marco na história, tanto das fotos sensuais quanto nas técnicas de fotografia dos anos 50. Bettie morreu nesta quinta-feira 11/12/2008 em Los Angeles.

Pioneira da liberação sexual nos anos 50, até hoje é reverenciada pelo cinema, mídias em geral, músicos de rock, artistas gráficos, fãs de automóveis, tatuadores, entre tantos outros artistas/profissionais. Afinal de contas, quando nossa avó era menina, passar batom era coisa de prostituta. Quando nossas mães eram pequena, usar minissaia era coisa do diabo.

Quando nossa prima mais velha usava minissaia, ainda não podia ver filmes picantes (que hoje passam livremente em um cinema perto de você!). As coisas mudam, o mundo muda... Não fiquemos presos aos preceitos culturais de nossa época pois a vida é maior que isso e o certo e o errado só se aplica quando você fere física ou emocionalmente o próximo... Assim nos ensinou Bettie Page.

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Anos 80 - A Peça

sábado, abril 01, 2006

Eu nasci em 1979. Um ano antes, o general Ernesto Geisel acabou com o AI-5, restaurou o habeas-corpus e abriu caminho para a volta da democracia no Brasil. Numa época de incertezas e esperanças, o governo Figueiredo trás de volta políticos, artistas e demais brasileiros exilados por crimes políticos. Nos anos que se seguiram, apesar de alguns atentados, vimos à volta do pluripartidarismo, movimento de diretas já, fortalecimento de sindicatos, e, entre outras coisas, a abertura e liberdade conquistada pela juventude. Foi neste contexto que eu nasci... Filho da revolução? Sim. Filho de uma geração que desde a Revolução de 64, lutou para termos uma infância melhor.

Esta introdução foi necessária por que nunca havia visto a minha pessoa e meus amigos desta forma. A liberdade cultural que os jovens viveram quando éramos crianças nos trouxe lembranças para a vida toda. Desde um doce diferente, programas de TV, até as festinhas americanas na escola, os Anos 80 foram o "boom", uma efervescência de produtos, marcas, modas, manias e músicas que nunca vamos esquecer. Por isso digo para vocês, não deixem de ver "Anos 80: A Peça" de Cristina Fagundes.

Anos 80: A Peça trouxe de volta muitas coisas, às quais alguns já haviam esquecido devido a vida tribulada de adulto. As frases célebres de heróis de desenhos animados, apresentadoras de programas infantis, programas do Silvio e Chacrinha, os cantores e músicas da época (muitos esquecidos como Naim, Rosana, Trem da Alegria, entre outros), o aumento absurdo de preços na época da inflação, a moda da época, brinquedos (o Batman com o Cubo Mágico é fora de série), as festinhas americanas em que a gente ficava com vergonha de chamar a menina mais bonita do colégio para dançar, os cabelos arrepiados na escola, as frases de comerciais da TV, o We Are the World na televisão, entre outras coisas que me fizeram rir horrores durante uma hora e meia de peça! Nem um pouco cansativo, pelo contrário, platéia cheia, rindo o tempo inteiro e aplaudindo de pé no final.

O que mais me impressionou foi o improviso dos atores na parte em que interagem com a platéia imitando os programas do Silvio Santos e Chacrinha. A cada tirada da platéia o elenco soltava uma nova piada na medida exata para fazer rir. O mais interessante foram os próprios estarem se divertindo com toda a encenação e não conseguirem segurar o riso junto ao público.

Ao lado do palco um telão passava, durante intervalos de 2 a 3 minutos, cenas da época, clips, entrevistas (inclusive uma com o Luciano Nassyn do Trem da Alegria), cenas de filmes, seriados, programas, entre outros.

Apesar de sentir falta de algumas coisas da minha infância que não foram representadas na peça, todo o elenco e direção estão de parabéns. Espero que a peça sempre se renove acrescentando novas "sketchs", outros assuntos e modismos dessa época maravilhosa.

Corrijam-me se encontrarem erros acima, deixo aqui o resumo para quem ainda não assistiu: "Quem não se lembra de como foram divertidos os anos 80? Das ombreiras enormes, do Chacrinha, do He-Man, de Guerra nas Estrelas e da Ilha da Fantasia? E quem nunca foi ao Tívoli Parque ou cantou Eduardo e Mônica? Anos 80: A peça veio para matar a saudade dessa década inesquecível! Direção e texto de Cristina Fagundes, com Marcelo Dias, Zé Guilherme Guimarães, Cristina Fagundes e Marcella Figueira”.

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