Normalmente eu não elaboro críticas de filmes que vejo em casa, mas apesar de me incomodar filmes repetitivos (cujo conceito já foi trabalhado diversas vezes), os filmes europeus que envolvem estudantes em uma posição crítica da sociedade sempre me surpreendem. Aconteceu recentemente com Entre os Muros da Escola, e agora novamente com A Onda (Die Welle). O filme é baseado em fatos reais, uma experiência chamada "The Third Wave" onde o professor Ron Jones questionou seus alunos sobre a origem de um movimento como o nazismo. A história já foi retratada em 1981 em um média-metragem para a TV.
A Onda fala de uma escola alemã (note que na Alemanha a maioria das escolas é mista, ou seja, não há uma divisão entre ricos, pobres, classe média, na maioria das vezes todos estudam juntos). Na escola, diferente do Brasil, os alunos são obrigados a escolher matérias eletivas, e uma dessas matérias é política, cuja classe é dividida entre autocracia e anarquia. O Prof. Wenger é um roqueiro invicto e quer pegar a turma de anarquia, mas o direto da escola o coloca entre os autocratas.
Wenger tem a idéia de lançar uma pergunta, seria possível um movimento ditatorial fascista surgir novamente na nova Alemanha? Os alunos dizem que não, dizem que deve-se viver para o povo e pelo povo. Nesta construção de comunidade, o preconceito contra os de fora, a expulsão de "traidores", a recriminação de idéias progressistas, tudo começa a sair do controle de Wenger até um ponto em que a massa se torna atraente demais para ser freada.
Como sempre digo, em arte nada se cria, portanto as referências estão espalhadas pela produção. As camisas brancas criticando o movimento Rosa Branca (critica-se o poder, mas se você estivesse no poder, o que aconteceria, seria a mesma coisa?), o filme de Julia Jentsch como Sophie Scholl (os panflhetos espalhados pela escola), os documentários nazistas (a câmera atrás da cabeça do professor mostrando a turba obediente), o garoto problemático (que me lembra Gus Van Sant), entre outras referências e técnicas clássicas do cinema ficção e documental.
S
POILER - Certas coisas no filme são um pouco forçadas. O garoto geek que é perturbado e leva armas para a escola, os bullies, os punks produzidos, os grupos em A Onda são estereótipos da sociedade alemã que normalmente você não vê com tanta frequencia andando pelas ruas (talvez nas cidades maiores).Também os alunos podendo perambular pela escola no meio da noite para tirar cópias e usar equipamentos escolares, e ainda, grafitar toda a cidade só correndo pelas ruas. Será que isso é tão fácil numa grande cidade alemã? Eu não vi isso quando fiquei lá por um mês.
já citei em posts anteriores o problema manipulado por Anna Freud. O descontentamento das massas, o desemprego, inflação, pobreza, enstrangeiros, existem diversos motivos para que pessoas descontentes sucumbam às idéias de um líder influente. Vemos isso nas prisóes americanas, na II Guerra Mundial, em países comunistas e socialistas, e em diversas outras situações. o problema não é julgar o movimento, a ideologia, o problema são as pessoas, estamos lidando com seres humanos que possuem comportamentos estranhos quando em cojunto, e mesmo o líder toma a posição do controlador, o führer, todas os seus julgamentos se tornam deturpados e inconsequentes.
Citando casos recentes, como a diretoria de uma universidade como a UNIBAN controlaria uma turba de estudantes caçoando de uma colega ou chutando o carro de outra? Melhor, por que a diretoria abraça a causa da massa e julga as estudantes sem reprimir o grupo? Não pense nisso como uma revolta, mas como um experimento psicológico. Você usaria a demagogia para apoiar e ter apoio do grupo, ou protegeria o outsider? No Brasil os políticos usam da demagogia para atrair os descontentes, e talvez só não chegue a uma ditadura por causa das pressões internacionais (quem conhece história sabe que o Brasil sempre jogou dos dois lados, Olga que o diga).
Destaque para a atriz brasileira Cristina do Rego, a rebelde rastafari que contesta o professor. Também as lindas atrizes alemãs Jennifer Ulrich, Odine Johne e Amelie Kiefer. Nota pessoal, o visual dos atores e locações está mais para subúrbio inglês do que o universo alemão (mesmo das cidades pequenas).
O média-metragem de 1981: http://www.youtube.com/watch?v=fwZdYuqKGdE&feature=related
O experimento original: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Third_Wave (em inglês)
Crítica: A Onda (Die Welle)
domingo, novembro 08, 2009
Crítica: Operação Valquíria
terça-feira, fevereiro 24, 2009
Isto não tira o mérito do filme, é um bom passatempo, mas uma experiência pobre. É duro aguentar, a cada cena, a tomada terminar com uma "frase de impacto" do tipo: "- Temos que salvar a Alemanha!" aí Tom sai de uma sala: "- Estamos fazendo isso pelo mundo" e depois vai ao banheiro: "- Preciso correr para destruir o mal na Europa!". Meu Deus, pra que frase de efeito toda hora? Mas a reconstituição histórica é muito boa e algumas cenas da Toca do Lobo me lembraram a vez em que fiquei perdido na floresta perto do campo Buchenwald em Weimar em 2005.
Se você forçar um pouco o cérebro dá até para tirar uma mensagem disso tudo. A maioria do povo e dos soldados alemães não tinha simpatia pelas ações do governo. Mesmo aqueles que não gostavam de judeus, homossexuais, imigrantes, etc., não queriam ver essas pessoas mortas e sim fora do país (o que também é errado, mas é menos radical). Só mesmo um grupo de oficiais para perceber que aquela megalomania estava destruindo o país e toda a Europa, e que tudo iria acabar rápido com a chegada dos aliados.Sempre reclamo de personagens não-americanos falando inglês, mas a "sacada" de Operação Valquíria foi interessante. O filme começa em alemão e o inglês vai se fundindo ao alemão bem devagar até que a única língua seja o inglês. Escute Tom Cruise falando alemão! Muito bom ver Terence Stamp representando novamente um general (seu outro general foi o General Zod de Superman - O Filme) .Tom Wilkinson também prova mais uma vez que é um ótimo ator, e Kenneth Branagah também rouba a cena algumas vezes. Destaque para o ator alemão Christian Berkel que fez um médico do exército alemão em A Queda. Nunca ouvi falar de David, mas David Bamber como Hitler quase me confunde com Bruno Ganz, os movimentos de Hitler parecem ter sido perfeitamente ensaiados, verdadeiro trabalho de um grande ator.
Gostei de ver um filme da II guerra que não mostra só a guerra na Alemanha e Rússia, mostrando a campanha na África que praticamente nunca aparece nas produções. Este filme tinha tudo para ser um novo clássico de guerra (já que os americanos não gostam de filmes em outros idiomas), mas a presença de Tom Cruise não convence e Bryan Singer, pelo amor de Deus, tem que voltar para X-Men pois com filmes de guerra e com Superman ele só consegue fazer filme para o "povão" chorar e não uma real obra artística-comercial.Há hoje um movimento muito forte nas mídias em geral em defender os alemães civis e soldados rasos (Menino do Pijama Listrado, Um Homem Bom, entre outros). Concordo e apóio pois muitos não podiam deixar de cumprir ordens, outros não sabiam de tudo e outros ficaram calados para não serem presos, e qualquer ditadura é prejudicial para o seu próprio povo. A Alemanha de hoje ainda tem violência contra estrangeiros, mas é menos de 1% da população que sofre de preconceito. É impressionante como eles recebem bem os estrangeiros, gostam de conhecer novas culturas, gostam de festivais brasileiros, jamaicanos, africanos, latinos, e o mais surpreendente é em Berlin o Paralmento ter aquela linda abóbada para que o povo esteja acima do governo.
Tom Cruise é o garoto-propaganda da Cientologia, a igreja criada por L. Ron Hubbard. A Cientologia tem na Alemanha um dos mais elevados índices de resistência, processos, alegações críticas, os alemães detestam a Cientologia. Colocar Tom Cruise no papel de um herói da Alemanha obedece uma estratégia de marketing planejada. Operação Valquíria é um bom filme, mas não espere grande coisa de suas qualidades cinematográficas.
Mais críticas em: http://www.omelete.com.br
Crítica: O Leitor
domingo, fevereiro 22, 2009
Nesta louca corrida para tentar ver todos os filmes que estão concorrendo ao Oscar, consegui ver mais dois filmes hoje no cinema, O Lutador e O Leitor. Vou começar pelo O Leitor pois as informações estão mais frescas na cabeça. O Leitor é um filme da Weistein Company, baseado no livro alemão Der Vorleser escrito pelo professor e juiz Bernhard Schlink. O filme na verdade é a narração de um pai para sua filha, apresentando-a à história de amor que ele viveu quando garoto.
O Leitor é mais uma obra do diretor de Billy Elliot e As Horas, e trata da relação entre um adolescente e uma mulher mais velha no período posterior à segunda grande guerra. O menino tem sua primeira experiência com o sexo oposto na casa de Hanna e mantém esta relação viva até que Hanna some de repente. O filme parece que irá tratar deste relacionamento durante as duas horas de projeção, mas lá pelo meio tudo mudo e o foco já não é mais a relação menino e mulher. Se eu contar o porquê, acabo estragando a surpresa (o video abaixo já estraga), mas o restante do filme é sobre lembranças, memórias, de quem é a culpa e no que se deve acreditar.
Não siga adiante se não quiser estragar sua sessão SPOILERS! O filme levanta um assunto polêmico que ocorre até hoje em diversas situações que envolvem crimes em massa, ou seja, de quem é a culpa? Os soldados alemães eram culpados por executar ordens ou terem medo de serem executados se as tarefas não fossem cumpridas? O povo alemão é culpado por ficar calado e não fazer nada contra o governo autoritário? Os judeus estão certos de até hoje exigirem compensação monetária dos povos anglo-saxões que criaram a guerra? (questão levantada pela sobrevivente no final do filme " - Não quero o dinheiro pois este significa absolvição...") Dificil responder.
Trata-se da interpretação do certo e do errado, daquilo que fazemos por que somos mandados, influenciados, seduzidos, e nem sempre conseguimos ter controle de nossos atos. Como julgar algo assim? Como julgar o comportamento humano sem considerar as milhares de variáveis que moldam a estrutura psicológica de um corpo feito de carne e pensamentos? Creio que a Alemanha sofra deste arrependimento até hoje, pois sei que meus amigos alemães não gostam muito de conversar sobre história... Seus avós eram culpados pelo mal do governo?Assim como aqueles filmes em que os mortos nos rodeiam tentando resolver um problema para descansar em paz, Michael Berg também precisa "exorcizar os seus demônios" depois de adulto, retomando contato com sua paixão de adolescente. Isto traz o espectador para mais perto da história pois todos nós temos assuntos mal resolvidos que é provável iremos carregar pela vida toda por que temos medo de enfrentar nossos "demônios interiores".
Com excessão do passado, o restante do filme não é apresentado em ordem cronológica. A filha de Michael aparece pequena e grande em diversas situações. Creio que esta foi uma tentativa de mostrar que a muito tempo o pai queria revelar aquela história para ela mas nunca tinha coragem...
Particularmente não gosto de filmes americanos/ingleses que se passam na Alemanha e todos os alemães falam inglês, mas foi interessante ver que diversos atores alemães famosos estiveram presentes neste filme, a contar Volker Bruch (Barão Vermelho, 2008), Bruno Ganz (A Queda, 2004), Karoline Herfurth (Meninas não Choram, 2002), Fabian Busch (Aprendendo a Mentir, 2003) e Alexandra Maria Lara (A Queda, 2004). Nota, a maquiagem do filme deixa muito a desejar... Dá pra ver claramente que as pessoas não são velhas de verdade.