Vejo em diversos locais (não só pelos quais passei), líderes, gestores, coordenadores e diretores discordarem de seus funcionáros e consultores externos. Isto é normal, ninguém possui a mesma opinião e muitas vezes estes atores compartilham o mesmo tipo (ou grau) de conhecimento, o suficiente para levantar um debate saudável que terminará em consenso.
O que me preocupa nestas situações é quando o conhecimento não é igual (profissões diferentes ou grau diferente de conhecimento) ou quando a discussão foge do conhecimento e entra no nível da opinião. Por isso acho que este post serve tanto para líderes quanto para profissionais que precisam trabalhar juntos.
Por mais que um líder tente se impor, oferecer uma opinião sem base ao redor de pessoas com conhecimento só mostra uma inabilidade em gerir pessoas, assim como deixa os "geridos" inseguros e pensando que seu líder é "aquele(a) cara engraçado que só fala besteira", "lá vem ele(a) de novo", "você ouviu o que ele(a) falou ontem?", além das imitações caricatas na hora do almoço (também conhecidas como "chacotas").
Mostre como líder que você tem uma opinião e dê a chance das pessoas provarem por que você está errado(a). Reconheça que você contratou bons profissionais por que eles podem agregar coisas boas à sua empresa, produtos e serviços. Se você julgá-los como sua "equipe operacional", em pouco tempo você perderá estes profissionais para outra empresa (ou vai construir concorrentes). Pior, o profissional com menos de 40 anos não liga de passar só 02 meses na sua empresa.
Se ele estiver desconfortável, ele vai te deixar na mão, você não conseguirá mantê-lo. Isto ocorre principalmente quando o trabalho é desorganizado, repetitivo, rápido demais (quando o profissional não tem tempo para fazer o que é certo por pressão ou exigências absurdas do líder) e/ou quando o descontentamento é diretamente com o líder imediato.
É chato pensar que ainda hoje há líderes que pensam assim. Seus funcionários mais novos não vão te seguir cegamente, vão te contestar e isso é algo que você tem que aceitar nos próximos anos com as novas gerações. Se um líder realmente acredita que nos dias de hoje existe uma hierarquia, que alguém manda em alguma coisa, que existe um méritocrata dando a palavra final, este "chefe" (quem tem chefe é índio) não merece ser líder. A hierarquia foi substituída pela colaboração. Ninguém quer receber ordens, você não pode dizer a eles como fazer, apenas informe que resultados você espera.
Tenho um grupo grande de amigos de uma empresa de TI (a qual não vou citar) que saíram, por causa da visão de seus líderes, para construir seu próprio negócio como startups. Eles não estavam preocupados com o quanto iriam ganhar ou com o nome da empresa no seu currículo, sua preocupação era um ambiente no qual suas idéias são valorizados, reconhecidas e aplicadas.
No momento em que as idéias não são consideradas, ou o funcionário irá te contestar ou não irá lhe falar mais nada, você será o último a saber de tudo pois o profissional sabe que se te procurar, sua opinião não será ouvida. Você sabe a quantidade de conhecimento que os seus funcionários tem e você não usa? Você sabe tudo o que ele estudou (principalmente antes de contestá-lo)?
No momento em que você afirma que seu funcionário está errado e você está certo, tenha certeza de que você pode explicar o porquê. Nunca diga "Não sei dizer, mas não acho isso legal". Não dê respostas subjetivas sobre aquilo que você não conhece (até por que seu conhecimento sobre o assunto pode ser baseado em suposições).
"Todo o homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo" - Schopenhauer
Se você não concordar, não duvide, não humilhe, não fale na frente de outros, não tente trazer informações da internet dizendo o contrário, não faça avaliações negativas e nem fale que outra pessoa externa disse pra você que aquilo não funciona assim. Só quem tem a competência de julgar e debater são profissionais de mesma área (ou similares), e se você já leu alguma coisa sobre os assuntos, abra um debate e não uma briga (pior, é estupidez achar que seus funcionários não conversam entre si pois eles sabem de tudo o que acontece uns com os outros - e na empresa - muitas vezes mais do que você).
Seu papel como líder é gerir o projeto e não tomar as decisões finais de como ele deve ser, isto é papel de quem está abaixo de você, pois eles sabem o que é melhor, sabem como deve ser feito e como irão fazer (contribua, mas lembre-se que a palavra final não é sua).
Em algumas situações você vai ter mesmo mais conhecimento que seus funcionários (de mesma área), em outras você vai precisar contratar pessoas a nível junior ou profissionais "baratinhos" que precisam ser "consertados". Mas se você quiser os melhores do seu lado seja o melhor líder, o melhor gestor de pessoas, o melhor "planejador" de projeto, equacione com o cliente, mas não fique na frente de quem quer fazer a coisa de forma correta. A pior coisa não é o projeto sair ruim, é a sua equipe inteira debandar e te deixar sozinho.
Deixe a subjetividade para os artistas abstratos, pessoas precisam de gestão, não de opiniões vazias. Mas lembre-se que, se seu funcionário disser "- Por que é", "Não sei explicar" ou "Já li em algum lugar", isto não são respostas, não explicam nada, seu funcionário é apenas um "repetidor" do que escuta por aí. Defesas devem ter embasamento (vindo do seu funcionário ou de você).
"We are not the old workers system, we are sparks of change." - Anônimo
Não use seu funcionário como "trampolim" para a sua carreira (ou para a sua empresa), transforme-os em colaboradores: "O sucesso normalmente vem para aqueles que estão ocupados demais para se preocupar com ele" - Henry David Thoreau. Será que você já não passou por isso com seus chefes no passado e está repetindo tudo agora que virou líder? Pense nisso. A sua equipe está gritando, você está escutando?
Leituras Importantes:
Funcionários da Geração Y
Do Your Employees Think Speaking up Is Pointless?
Why Controlling Bosses Have Unproductive Employees
"Quando você ensina um homem a odiar ou temer seu irmão, quando você ensina a ele que outros são menos do que ele por causa de crenças ou ideais que buscam, quando você ensina que aqueles que diferem dele ameaçam sua liberdade, seu emprego ou família, então este aprende a vê-los não como uma comunidade, mas como inimigos a serem confrontados, não com colaboração, mas como conquista. Para serem subjugados e dominados." - Robert Kennedy
P.S. Não torne seu funcionário seu inimigo. Na dúvida, fale para o seu colaborador que o assunto é muito legal e que você acha que seria legal um dia ele fazer uma apresentação para a equipe. Você irá obter mais conhecimento, o restante da equipe irá respeitar mais a opinião daquele profissional (melhores decisões são tomadas em equipe) e você identificará se aquele contratado sabe mesmo do assunto ou não. No final o próprio funcionário ficará feliz de ser valorizado e poder compartilhar aquilo que sabe.
O Seu Líder Estava Certo?
terça-feira, maio 18, 2010
Empatia: As Pessoas são Diferentes
domingo, abril 11, 2010
Esta semana, estava eu no consultório médico aguardando uma consulta com uma doutora a qual frequento há algum tempo, quando esta me pediu que tomasse conta de um menino de mais ou menos 7 anos cujo pai foi comprar algo fora enquanto ela terminava os exames. O menino deveria esperá-lo. Como eu não era o próximo na fila de consultas (e ela não possui secretária), fiquei tomando conta do menino na sala de espera.
Começar uma conversa com crianças nunca é fácil. Você não sabe que idade elas têm, do que gostam, e até mesmo até que ponto o seu conhecimento do mundo infantil bate com a realidade (sem mostrar uma visão estereotipada do que é ser criança nesta década, os "Millenniums").
Como eu fiquei calado durante algum tempo jogando tetris no meu celular, o garoto eventualmente parou em pé ao meu lado e ficou olhando. Não demorou muito soltou o comentário "- Caraca, manero...". Não sou desatualizado. Conheço o mercado de games e sei que meu celular não é nenhum iPhone ou PSP, portanto a primeira coisa que me passou pela cabeça foi por que aquele garoto de 7 anos achava "manero" um jogo 2D, pior que 8 bits, cujas funcionalidades são básicas e monótonas demais para entreter uma criança de "atenção dividida" no século XXI.
Imaginei que ele estava era tentando puxar conversa, pois não tinha nada mais o que fazer, daí entrei no jogo social. Perguntei se ele tinha videogame em casa. Ele comentou que tinha o Wii e o Nintendo DS, mas que jogava mais o DS (a geração "Millennium" só fala DS, sem Nintendo). Comecei então a perguntar que jogos ele tinha e inseri na conversa a minha própria experiência com games baseado no filho do meu primo (Wii) e na minha recente aquisição, o PlayStation 3 (PS3).
O menino ficou empolgado. Uma hora ele parou e falou: "- Você não parece com nenhum adulto que eu conheço!". Nessa hora me passou pela cabeça que, ou eu sou infantil demais (ou geek), ou tenho um forte interesse pelo comportamento da geração "Millennium" ao ponto de me envolver com sua cultura (sempre conversei bem com pessoas 10 anos mais velhas, então ser infantil não parecia o caso). Depois pensei em tudo que absorvi entre os 20 e 30 de idade anos e percebi que eu lembrava, mesmo que não estivesse imerso, da maioria das coisas que outras gerações, hoje com 15, 20, 25 anos, fizeram em seu tempo de criança e de pré-adolescente (hoje tenho 30 anos).
Depois da conversa de games, o menino ficou curioso sobre com o que eu trabalhava. Tentei ser didático inserindo minha função (Arquiteto de Informação) no universo de conhecimento dele. Quando falei que era designer, a primeira coisa que passou na cabeça dele foi que eu fazia personagens de games e desenhos (queria entender a âncora de conhecimento prévio que o levou a isso). Expliquei que era mais ou menos isso, que na verdade eu trabalhava com TV interativa e internet, para deixar um site mais legal de usar, bonito, etc.
Perguntei então se ele já havia visto o "i" de interatividade no Cartoon Network. Ele disse que não tinha TV a cabo em casa, mas que já tinha visto na casa da tia, mas nunca usou. Daí eu expliquei que se ele apertasse o botão vermelho do controle remoto, o Cartoon mostraria jogos, brincadeiras e outras coisas que são parecidas com as coisas que eu faço no trabalho. Ele ficou super empolgado e disse "- Muito legal! Bom saber... Quando for na minha tia eu vou tentar" (para o terror de sua tia eu não disse que é pago).
Logo depois entramos em uma conversa de desenhos do Cartoon e da Nickelodeon, Star Wars (Clone Wars 3D), Brandy e O Senhor Bigodes, Bob Esponja e outros (que eu também curto, adoro animação com roteiros bem trabalhados), e mais uma vez ele mandou: "- Caraca, você não é como os outros adultos.". Daí começamos a contorcer os dedos e as expressões faciais com aquelas brincadeiras de criança do tipo "Você consegue fazer isso?". Logo após o pai chegou e ele foi embora.
Confesso ser um viciado em informação e gostar de coisas geek, mas nunca tive o comportamento frenético de nerds e geeks que compram mídias alucinadamente, gastam rios de dinheiro em livros e brinquedos (depois de adulto) e gastam tempo demais nessas atividades de escapismo. Entretanto, minha rápida busca por informação e atualização me mantém por dentro de assuntos dos mais variados mesmo que eu não dedique um tempo considerável a me envolver com atividades que não são da minha geração, da minha classe social, do meu gênero ou cultura (por que não ouvir música alemã, ler um autor beatnik ou ver um filme de Angola?).
Isto me faz pensar em todo meu trabalho como designer de experiência e de interação, nesta empatia com "o outro" para criar produtos e serviços que realmente são necessários, que importam e com os quais as pessoas criam relações. Quando você critica os novos "Guerra nas Estrelas" e uma criança de 8 anos conhece Star Wars de trás pra frente, o filme pode não ter uma boa história, mas foi o tom ideal para uma empresa atingir públicos-alvo específicos que possuíam certa expectativa do que iriam ver, ou seja, foram criados novos consumidores por pessoas que tentaram conhecer estes consumidores e acertaram.
Sentar em uma cadeira para tomar decisões de produtos e serviços não começa com uma boa idéia, não começa com desenvolvimento, não começa com parcerias, não começa com "mão-na-massa". O surgimento de um novo produto começa com o cliente, o que você sabe sobre o cliente, como ele age, com oele se relaciona, do que ele precisa, para que ele precisa, e se ele tiver o que ele precisa, como ele acha que pode usá-lo.
Vejo startups desenvolvendo produtos e gastando dinheiro de clientes por 01 ano, 02 anos (ou mais), sem ter nada no mercado (nem mesmo um teaser), sem conhecer absolutamente nada de seu cliente final, lidando com estereótipos, arquétipos falsos daquilo que acham que o cliente final irá pensar. Isso nunca deu certo. A não ser que você seja único e seu produto muito difícil de replicar, não adianta utilizar métodos ágeis, scrum, brainstorms, teorias fantásticas e processos de gerenciamento da última moda. Seu produto será um fracasso em pouco tempo se o usuário final não entrar na jogada.
Na última pesquisa qualitativa da qual participei, todos ficaram impressionados em como as classes C e D tinham forte conhecimento de novas tecnologias. Eu já sabia disso há algum tempo por lidar com indivíduos de diferentes tipos no meu dia-a-dia e me supreendeu que outros não soubessem desta característica. O exemplo é aceitável, as pessoas não são obrigadas a passar pela minha experiência, mas estereótipos são derivados de modelos mentais cujas conclusões nunca podem ser utilizadas para desenolver um produto ou serviço, neste caso foi ótimo que outros descobrissem, de forma prática, essa novidade.
Quando Edgar Schein propôs aos seus alunos que fossem às ruas e conversassem com mendigos, prostitutas, sem-teto, travestis e qualquer outro indivíduo que fosse radicalmente diferente do que eles estavam acostumados, estes percebem a quantidade de suposições que temos a tendência de fazer sobre a vida das pessoas sem conhecê-las e o quanto isso é prejudicial se determinados nichos são o seu consumidor/usuário final (até mesmo na sua vida pessoal).
As pessoas não têm a mesma bagagem que você, não carregam as mesmas experiências, e as dificuldades que elas tem (e a forma delas interpretarem o mundo) não é sinal de burrice, ignorância, falta de educação ou qualquer outra suposição que você possa fazer sem conhecê-las (ou com "achismos"). Modelos mentais têm que ser trabalhados pois não adianta os líderes de sua empresa exigirem certas funcionalidades de seu produto/serviço, pois não conseguirão exigir que o cliente final as use. Consulte quem realmente vai usar, apague suas idéias, torne-se o outro, o diferente.
O que vejo são pessoas usando esta premissa como mantra, achando bonito, trocando artigos, elogiando empresas estrangeiras, mas nunca aplicando (na verdade, no fundo, não acreditam, pois quando alguém de fora tenta aplicar é logo censurado por questões de custo, tempo ou líderes inexperientes que se dizem experientes apenas pelo tempo e locais por que passaram). O seu líder pode ser o seu modelo, mas ele não é o seu "guru", e o certo é ele dividir as decisões com a equipe, principalmente considerando aqueles da equipe que tem um conhecimento maior sobre os assuntos em pauta.
Todos sabemos que o projeto é um ciclo que vai e volta, que gera retrabalho (refactorying), que descobre-se coisas novas a todo momento, mas se sua equipe está fazendo e refazendo muitas vezes, alguma coisa está errada, e é bem provável que o erro esteja no início de todo o projeto, principalmente nos métodos de gestão, no inicio do projeto, na ignorância de quem é o cliente (mesmo que este seja uma criança).
O primeiro passo de qualquer projeto é entender, entender o cliente que te contrata, as preocupações da sua equipe, as relações com os seus fornecedores e como tudo isso se encaixa nas necessidades de quem vai usar aquilo que você quer colocar no mercado. Não vacile, entenda as pessoas, faça grandes amigos, crie marcas de sucesso e conquiste muitos clientes felizes.
Para os que ficam frustrados com a posição de seus chefes e empresas só posso recomendar o enfrentamento, bata o pé, explique, traga coisas novas, prove, mostre por que eles estavam errados e você estava certo. Se você não provar o seu ponto-de-vista nos métodos de trabalho você já foi derrotado por aqueles que se acham "certos" (por mais errados que eles estejam).
As Melhores Animações
segunda-feira, abril 05, 2010
Como acho que as pessoas não estão entrando muito nos meus canais do Vimeo e YouTube, decidi por postar minhas animações preferidas por aqui mesmo. Muitas são animações que ganharam o Oscar, outras são ótimos trabalhos de amadores, mas todas têm em comum a paixão por contar uma história. Sejam toscas ou vencedoras do Oscar, aproveitem, vejam e comentem. Para uma experiência melhor, espere carregar o video por completo.
Crítica Filme: Educação
sexta-feira, março 12, 2010
Quando eu viajava para a Bahia com os amigos em época de carnaval, apesar de me sair bem, eu não tinha o mesmo desempenho que meus amigos mostravam na folia. Eles diziam que eu parecia um lorde inglês. Não por ser convencido ou pomposo, mas pelas coisas que eu conversava, jeio que falava e sendo educado demais. Talvez seja por isso que eu gosto de ver este tipo de filme, por mais que a história seja cliché.
Talvez incoscientemente eu tenha o desejo de ter nascido em uma época de inocência (nem era tanto assim) como a era vitoriana ou os anos 60 (antes da revolução sexual), e ter sido o homem pelo qual as meninas ficam fascinadas pelo estilo de vida libertário, moderno, inteligente e louco.
P
or que clichés? Por que a história da menina tímida e controlada pelo pai (Alfred Molina) que se apaixona pelo homem mais velho, experiente e inconsequente já foi feita em dezenas de filmes, centenas de séries e milhares de livros. Nada é novo. A história, a ambientação, os bailes de jazz, a cultura francesa, a sociedade inglesa, as escolas rígidas, tudo está lá.
Mas o que faz do filme tão bom? Boa pergunta. O alarde feito em torno da produção não é justificado visto o que é apresentado, entretanto a atuação, figurino e fotografia tem seus méritos. Até a adaptação do roteiro ficou boa, só poderiam ter feito um "twist" melhor para que a história não fosse uma sequencia de coisas previsíveis.
Educação (An Education) é a história de Jenny, uma menina de 16 anos (intepretada por Carey Mulligan de 24 anos), que vive com o pai que insiste que ela passe para Oxford, e a mãe dividida entre apoiar os gostos da filha ou os caprichos do marido. Jenny toca violoncelo, adora música e ama francês, mas isso não irá ajudá-la a entrar em Oxford, portanto ela tem que melhorar suas notas em latim.
Após um concerto na escola onde ela toca violoncelo, Jenny conhece David, um homem mais velho do qual ela desconfia no incio, mas logo fica fascinada com seus amigos e estilo de vida. Parece que David não quer nada, apenas apreentar o mundo de verdade para a menina, mas aos poucos Jenny descobre que não é a primeira vez que ele faz isso.
Peter Sarsgaard tem aquela cara que serve tanto para galã de filme de época quanto para vilão de filme do Bruce Willis, mas apesar de sua ótima atuação, é um daqueles atores estilo Selto Mello, ou seja, não importa o personagem, é sempre o mesmo tipo de atuação, é sempre igual.
Já Carey eu não posso falar muito pois não vi muitos trabalhos dela, entretanto não há como não elogiar a "beleza inglesa" da novata, sua aparência em roupas de época e expressões de raiva e tristeza fazem com que você queria ter uma mulher assim do seu lado. Me lembra Larisa Oleynick do seriado Alex Mack.
Na minha opinião quem roubou a maioria das cenas foi Danny (Dominic Cooper) e a bela Helen (Rosamund Pike), o amigo de David e a namorada burra de Danny. Alfred Molina (a.k.a. Dr Octopus) e Emma Thompson são atores de alto escalão que foram mal aproveitados neste filme. Senti falta também de uma força "Pink Floydiana" de revolta, de luta contra o sistema escolar inglês e suas tradições e rigidez. Parece que quando seu sonho pode não dar certo, Jenny simplesmente volta a fazer o que todo mundo espera dela pedindo de joelhos para ser aceita de volta no sistema.
Isso realmente não ensina nada às novas gerações que precisam lutar contra as tradições, contra preceitos culturais que ficam arraigados nas raízes da sociedade e que nosso pais e avós (principalmente quando não têm instrução) trazem no insconsciente como se fosse lei. Você não deve se machucar, ferir os outros e se destruir, o restante tudo é válido. Não existe lei quando o objetivo é ser feliz (e se tiver que visitar Paris, por que não?).
Os cinemas do Grupo Estação nas salas de Botafogo, RJ, melhoraram seus assentos. Vale a pena conferir. Está bem melhor e mais confortável. Ah, e o cheiro de carpete dos assentos de cinemas antigos continua lá.
O Wolverine é Exagerado?
terça-feira, março 02, 2010
Hoje na minha vida adulta já é possível,através do meu conhecimento, avaliar muitas coisas do meu passado nas quais nem pensava, ou refletia muito pouco. Sem querer parecer nerd (e já levantando a bandeira), existem alguns personagens de quadrinhos que sinceramente são difíceis de entender.
A gente compreende totalmente o fato de que é um mundo fictício, de que super-heróis não existem de verdade e ainda que os roteiristas possuem liberdade poética, mas se um personagem é estabelecido, ninguém deveria torná-lo algo além da vida, digo, algo absurdo (já pensou abrir os quadrinhos e ver O Capitão América brigando com o Coisa? Agilidade à parte, um soco do pedregoso é de matar).
Esta introdução foi feita por causa de Wolverine. Um de meus personagens preferidos na adolescência, acho que nunca houve um personagem tão "roubado" no universo Marvel e DC quanto o velho samurai. Vejamos. No inicio ele sai da cavera e luta contra o Hulk. Ele tem fator de cura, portanto sara em segundos.
O governo norte-americano, aparentemente testando o projeto Super Soldado em mutantes, transforma seus ossos em adamantium e lhe dá garras (lembra do desenho esquemático das garras nas antigas revistinhas da Abril em formatinho? Sim leitores, no incio não existiam garras de osso, o que depois foi mudado na série Origens). Wolverine portanto é o Arma X, ou seja a décima tentativado governo americano em criar um super soldado (o Capitão América portanto é o "Arma 0"?). Apenas um mutante com as habilidades de Logan (cura) poderia se tornar um soldado perfeito. E ele aceita.
Bem, o que sabemos até agora? Fator de cura, ossos de adamantium, garras e habilidades de luta. Ninguém falou em super força, em voar, em soltar raios e nem mesmo questionou-se como os ossos de adamantium absorvem o impacto (nossos ossos são porosos para isso, sabia?), nem mesmo como ele consegue andar com o peso do esqueleto, como são seus ligamentos ou como ele aguenta dor extrema sem desmaiar (lembra quando o Justiceiro metralhou a cara dele?). Será que os ossos são só folheados que nem as jóias da minha avó (afinal de contas no filme é derramado um metal líquido que era para ter derretido os antigos ossos todos...)?
Pois bem, aceitando tudo isso, por que diabos este personagem que é um humano comum com fator de cura e ossos de adamantium consegue pular de alturas absurdas, sobreviver a acidentes inimagináveis, levar um soco do Hulk ou do Homem-Aranha e manter a cabeça no lugar (conexões e ligamentos de adamantium?) ou não perder um braço?
Por que ninguém nunca separa um membro ou a cabeça de Wolverine? Se ele não tem superforça ou super-ligamentos, qualquer um mais forte seguraria o cara.
Lembre-se não há super-força, o Aranha tem a força de uma aranha de tamanho proporcional a um homem, o Capitão deve ter o dobro ou triplo, o Hulk nem se fala, mas e Logan? Pular super alto, brigar com heróis que podem lhe arrancar a cabeça? What the f*?
Na condição de humano, uma bala ou projétil qualquer que entrasse no olho ou por baixo do crânio, ou seja, áreas não protegidas pelos ossos, mataria o nervosinho na hora. Você vai dizer, mas ela fica alojada e se for retirada ele fica bom. Mas nosso cérebro não dura muito com uma bala, e se a bala ficar por mais de 10 minutos em Wolvi, é adeus ao personagem, a morte de um herói (e por que nenhum vilão pensou nisso antes?). É a mesma coisa do Homem-Aranha levar um tiro... Se Peter Parker levar um tiro, é adeus na certa.
Por isso os personagens coadjuvantes da Marvel (e o Demolidor) costumam ser melhores (vê-se Punho-de-Ferro, Nick Fury, Viúva Negra, entre outros que possuem sagas mais coerentes, sensatas dentro do próprio universo). Você não sabe a história dele, ele aparece pouco, você acredita em seus poderes e ele some. Ninguém sai por aí indo para outro planeta, lutando contra heróis "mega ultra hiper" e nem fazendo coisas impossíveis de acordo com os poderes que lhe são atribuídos.
By the way, o fato de Matt Murdock ter seus sentidos aguçados também não permitiriam pular de prédios se pendurando em mastros de bandeiras e enrolando sua corda durante a queda... Desisto dos heróis comerciais Marvel (nunca gostei de DC e li pouco a Image). Vamos dar conta do cenário independente de quadrinhos, mais sensato e mais pé-no-chão com suas próprias criações.
Percepção e Experiência - Vernon
domingo, janeiro 10, 2010
No processo de procurar materiais que dessem uma base mais médica e psicológica ao trabalho do arquiteto de informação e do designer de interação, selecionei alguns livros de psicologia cognitiva que me oferecessem um melhor pool de arguementos assim como conhecimento do que podemos fazer, como arquitetos, ao lidar com a organização de informações, construção visual e marketing pelo conteúdo.
O primeiro livro desta lista foi Percepção e Experiência de M.D. Vernon. O livro não é novo, na verdade suas pesquisas datam da metade do século XX, entretanto boa parte de seus argumentos são interessantes e intrigantes no sentido de que nós, como humanos, temos orgãos que influenciam nossa percepção do que vemos, sentimos e como atuamos. Tenho ciência do papel da cultura (no sentido antropológico) no desenvolvimento destas experiências, mas seria ignorante de qualquer profissional não considerar que existem processos instintivos que não conseguimos controlar. E é aí que o profissional de design entra (seja ele designer, arquiteto, design thinker ou de marketing).
O objetivo do livro foi entrar no campo da percepção através da experiência considerando aprendizagem, memória, atenção, linguagem e raciocínio. Apesar de trazer uma abordagem acadêmica descrevendo diversos experimentos, Vernon elucida aspectos importantes da percepção e gestalt. Pode parecer cansativo o fato de que alguns dos temas tratados sejam relacionados a esquemas espaciais, percepção de pessoas e materiais complexos, mas têm-se uma ampla cobertura de percepção da forma, direção de atenção, constâncias, percepção de movimento, efeitos da motivação na percepção e o efeito das características de personalidade.
Processos de percepção
Primeiro é preciso entender o porquê. Vernon afirma que a forma e o movimento são integrados por processos de identificação, classificação e codificação através de esquemas perceptivos que dependem de aprendizagem, memória, atenção, raciocínio e linguagem. Isso significa que características básicas de cor, forma e movimento precisam ser sistematizadas e, além disso, processadas de forma estruturada para que o receptor da informação tenha a compreensão correta.
Na identificação o individuo perecebe as informações de acordo com a manutenção máxima de estabilidade, permanência e coerência, ou seja, todo processo de percepção considera variação e mudança e esta é interpretada baseado em modelos cognitivos pré-estuturados ou que são construídos em um processo evolutivo de aprendizado.
Alguns pontos sobre bebês
Ao atravessar blocos de informação, o individuo realiza movimentos sacádicos (movimentos rápidos dos olhos com pausa de fixação entre eles) de forma a procurar a informação formulada na construção da intenção. Apesar de não ser totalmente comprovada, esta característica foi encontrada também em bebês.
Nos experimentos com bebês, verificou-se que linhas verticais chamavam mais a atenção desta faixa etária, assim como as cores vermelho, amarelo, azul e verde, exatamente nesta ordem (o que lembra as teclas principais utilizadas nos dias hoje para controles remotos de TV interativa). Entretanto, bebês possuem um sentido exacerbado para a novidade, uma resposta orientadora que direciona o olhar e a excitação do sistema nervoso para a estimulação nova. O mesmo ocorre com a complexidade.
O que pode-se entender deste bloco é que nesta idade temos a tendência de ficarmos perplexos com a novidade, acostumar-mos com suas características, ignoramos por completo e eventualmente nos concentrarmos naquilo que é diferente. Entretanto, foi verificado que complexidade era algo importante no interesse da criança pois quanto mais complexo o objeto, o tempo de fixação visual dos bebês reduzia significativamente.
Me passou pela cabeça a pesquisa de público-alvo quando este não tem a educação, cultura e/ou conhecimento para interpretar certos constructos informacionais e visuais e ignoram elementos de interface por completo, ou desistem de utilizar um sistema inteiro. A exploração para o conhecimento e aprendizagem está associada a variedade, ao estímulo e à evolução da complexidade de forma que o modelo mental possa ser construído durante o uso do sistema e não assimilado já na porta de entrada.
A Necessidade de Humanização
A partir de certa idade a criança pretere rostos humanos a objetos, independente de sua forma, mas continuam com a curiosidade pela complexidade, pelo novo e diferente quando apresentadas a rostos deformados. Apesar de se aplicar ao mesmo processo de objetos, pode-se retirar da primeira parte da sentença anterior que a identificação com o outro, a necessidade do “ser social”, interfere na percepção e aprendizado, principalmente no interesse e motivação.
Veja a parte II deste post em alguns dias.
Percepção do Trabalho de Arquiteto de Informação
sábado, dezembro 26, 2009
O mercado de Tecnologia de Informação (TI) brasileiro tem um problema. Este problema não é de estrangulamento, não é mercadológico, assim como não é da falta de especialização profissional. Há muito percebe-se que o foco das empresas de TI tem sido a resolução de problemas de uma forma desordenada, rápida, produtos entregues em um processo que visa mais a impressão momentânea do cliente do que a qualidade. Impressão sim, pois os bons resultados só acontecem nos primeiros dias de uso para depois serem descobertos erros básicos, muitas vezes pela falta de planejamento ou ignorância das necessidades, modelo mental e outras características do público-alvo e/ou da tarefa e regras de negócio.
O mais triste é escutar que estes erros eram previstos pois "o que o cliente percebe é a velocidade de entrega", ou seja, há um conhecimento prévio de que as coisas vão dar errado e serão refeitas diversas vezes (o famoso refactorying), o código será refeito e rearrumado, a modelagem UML refeita, o design modificado e arquitetura de informação só será avaliada com o produto pronto. Pior que depois da análise de arquitetura, você ainda irá escutar: "- Concordo, mas agora não dá para voltar atrás, não dá para refazer esta parte do código, não dá para colocar esta informação.", entre outras frases célebres que permeiam o desenvolvimento caótico onde se quer construir o sobrado da casa antes das fundações e depois sai mais caro consertar do que fazer de novo.
O mais perigoso é a má interpretação de modelos estrangeiros como Agile, Scrum e outras técnicas que, aqui, são aplicadas através de uso literal, inflexível, quase que como uma receita de bolo. Como toda receita de bolo na cozinha de um Chef, a receita ou é seguida sem reflexão, ou é alterada ao bel prazer sem se medir as consequencias. Já pude até escutar de um amigo que a metologia scrum que utilizávamos em outra empresa era "meia-boca" uma vez que na outra empresa percebeu-se que a interpretação do material de estudo não estava correta, o que gerou a criação de um próprio processo scrum interno, adaptado à dinâmica dos projetos, pessoas e empresa. O processo chamado de "meia-boca", depois de 01 ano de insistência, passou a considerar a arquitetura de informação e o design como partes essenciais do projeto, sendo que os profissionais de TI já estavam começando a compreender o efeitos destas disciplinas no sucesso dos produtos.
As características multidisciplinar de atividades como design, arquitetura de informação, ergonomia, até mesmo a arquitetura de prédios, casas e interiores, faz com que todos de fora tenham uma opinião sem terem base científica ou de mercado. contando apenas com o "achismo". Ninguém pede a um médico que coloque o coração mais para o lado direito, ou que um engenheiro civil deve colocar a coluna na lateral e não no meio do teto.
Por que para estas outras profissões há uma vontade do palpite enquanto que para outras isto não existe? Por que não há a percepção de que existem pessoas que estudaram, possuem conhecimento avançado naquelas áreas e podem elucidar e pensar problemas que você não percebe? Por que falta a percepção que isso pode significar perda de dinheiro, de público e o crescimento da concorrência?
Isto inclusive afeta o nível salarial de arquitetos e designers que em alguns casos são muito mais especializados do que alguns desenvolvedores nas empresas (ou a hora no mercado freelance). Ah, arquitetos podem ser designers, desenvolvedores, analistas, psicólogos cognitivos, ou seja, a formação básica não tem relação com a especialização, talvez apenas com o foco.
Esta introdução abre uma série de textos que irei trazer para o blog sobre arquitetura da informação que podem servir como banco de argumentos a quem trabalha com arquitetura e design. A arquitetura de informação, ao lado do design, talvez sejam as áreas mais mal-interpretadas no mercado de TI. Não sei dizer se pela falta de compreensão ou se pela visão ensinada nas faculdade e cursos de informática, mas a racionalização de processos e os "achismos" tendem a sumir com a geração de profissionais mais jovens, principalmente pela introdução da usabilidade nas faculdades de tecnologia.
Uso também este espaço para defender a engenharia. A arquitetura de informação e usabilidade se originou na engenharia de produção na ergonomia. A engenharia de usabilidade visava a análise do uso de interfaces de máquinas, tanto em displays quanto de interfaces físicas (alavancas, botões, pedais, manuseio fino, etc.). Fiz mestrado em engenharia e portanto posso afirmar que em 90% dos casos (minha experiência) os engenheiros ainda conseguem ter a cabeça mais aberta em termos de processo do que os profissionais de informática.
Os textos não visam atacar a informática brasileira visto que tenho muitos amigos, profissionais de TI, que compartilham da minha visão. O principal é trazer informações a partir de livros e artigos que li, conversas com profissionais, palestras e congressos, para que este trabalho sirva como conscientização e reflexão do porquê é tão difícil para as empresas de TI brasileiras inovar, planejar, pensar, refletir e trazer as regras de negócio e o próprio usuário para mais perto da construção dos produtos.
Roma não foi construída em um dia, e nem um sistema de sucesso será construído em dois dias, uma semana, três meses. Faça seu planejamento ser real para que qualidade real seja atingida. Não trate a arquitetura de informação e o design como etapas inúteis ou como a fase que deixará seu produto "bonitinho", pois elas talvez sejam a parte mais importante para o seu usuário e para que você consiga competir contra produtos concorrentes que vão roubar a sua idéia e melhorá-la. Arquitetura e design são justamente as etapas que você não deve tentar acelerar, fazer de qualquer jeito ou cortar do projeto.
Nota, é papel do profissinal de arquitetura de informação e do designer tornar sua documentação compreensível a qualquer profissional envolvido com o projeto, inclusive o cliente. Se materiais como wireframes, fluxos de tarefa, mapas do sistema, mapas mentais, e outros "entregáveis" não estiverem compreensíveis, exija da sua equipe ou contratado que o material seja mais esclarecedor e menos técnico, mas da mesma forma detalhado, sem perder informações por simplificação. O bom profissional é aquele que consegue explicar o que faz para uma criança de 7 anos e ela entende.
Crítica: 2012
sexta-feira, dezembro 25, 2009
Não, não foi para testar novas tecnologias, e nem para apresentar um novo clássico, 2012 é ruim. Ruim em diversos aspectos. A quantidade de clichés cinematrográficos é tão grande que chega-se ao ponto em que fica impossível contá-los ou listá-los. Fui ver 2012 no dia em que tentei ver Avatar, mas descobri que as sessões de Avatar estavam todas lotadas. Pelo marketing entorno da produção, você acaba ficando curioso para ver o que mais um filme catátrofe de Roland Emmerich pode lhe trazer.
O filme começa como todo filme blockbuster feito para o senso comum. Um grupo de cientistas, como no "Dia em que a Terra Parou" com Keanu Reeves, abre o filme descobrindo a catástrofe iminente. No início eles não acreditam, mas quando vêem que a coisa é séria tentam convencer o governo, mas ninguém acredita de primeira. Após convencê-los, por coincidência (e para acelerar o filme) há uma reunião do G8 em andamento. Agora o presidente americano pode anunciar aos líderes mundias que o mundo vai acabar, no melhor tom dos grandes pioneiros e pastores americanos, um discurso a lá Independence Day.
Segue a introdução dos personagens que criam a empatia com a história (alguém lembrou de Syd Field?). Por enquanto nada aconteceu, a não ser rachaduras nas ruas que assustadoramente perseguem os carros exatamente na direção para onde se dirigem. De repente, quando o presidente resolve falar na TV, aí sim a Terra fica zangada e começa a destruição de verdade (pô senhor presidente, que papelão!).
Nisso seguem diversas frases de impacto como "Hoje salvamos o mundo", "Hoje a humanidade se despede" e outros clichés do discurso de filmes para as massas. Milagrosamente a energia em todos os Estados Unidos não caiu, todos estão com as luzes acesas, usam seus notebooks sem economizar energia e conseguem se comunicar por celular com o mundo inteiro, mesmo sem antenas. Um viva para os satélites!
Como se sabe, o mundo não vai acabar de verdade. Os maias, por acaso, só escreveram seu calendário até 2012, mas nunca disseram que seria o fim do mundo. De repente quando Cortez (ou foi Pizarro?) chegou para destrui-los, não deu tempo de fazer 2013? A realidade é que ninguém fala de fim de mundo neste ano em específico. Tomara que não achem no futuro aquele calendário legal na caneta colorida que eu tinha quando criança, pois ele só vai até 2040!
Quando 2012 começa eu pensei estar vendo Guerra dos Mundos de Steven Spielberg, com Tom Cruise. O pai separado que tem que cuidar dos filhos nos finais de semana. A filha adora o pai mas o filho mais velho odeia. No decorrer do filme eles vêem que têm muita coisa em comum e fazem as pazes. O herói faz as pazes com a ex-esposa e todos vivem felizes para sempre pois a tragédia acabou milagrosamente.
Depois pensei peraí, não é Guerra dos Mundos, é The Cosby Show! Nada contra, o bisavô da minha mãe era afro-brasileiro casado com uma mulher branca, mas colocar todo o elenco de "líderes do filme", todos como afro-americanos? Por favor expliquem o porquê. Por causa da eleição do Obama? Não sei... Sei que é a terceira vez que vejo a cara de Danny Glover suja de pó branco (a primeira foi em Máquina Mortífera e a segunda em Predador II).
Quando fazia arte sequencial (lê-se quadrinhos), normalmente guardava uma caixa de imagens de referência para desenho de pessos e objetos. A impressão que tive ao ver 2012 é que pegaram essa caixa de referências e simplesmente usaram para fazer um filme. Lembra daquelas mesmas imagens que aparecem em todos os filmes catástrofe, por exemplo, muçulmanos rezando em Meca ao redor do cubo, multidão no Vaticano, judeus no muro das lamentações, não é brincadeira, as imagens são exatamente as mesmas em todos os filmes, para dizer que a população mundial se uniu contra a tragédia.
Agora vamos a alguns bloopers. Na India, o amigo de Adrian Helmsley estuda a movimentação das placas tectônicas com computadores altamente sofisticados enfiados em uma mina, com um pequeno ventilador branco em cima da mesa, enquanto o cientista-chefe coloca gelo nos pés! Meu Deus, os computadores têm coolers alienígenas? Como são refrigerados? E os computadores com interfaces complexas de globos em 3D que se atualizam em tempo real? Onde eles arranjam esses brinquedos maravilhosos? (citando Coringa). E na decisâo de abrir as portas, os americanos sâo os ùltimos a decidir fazer a coisa certa.
Outra coisa que me incomoda é por que o personagem de John Cusak nunca jogou na loteria federal americana. Quando o chão está desabando no último segundo o avião sobe. Quando o viaduto está caindo, no último segundo o carro passa, quando o trailer cai no buraco, no último segundo ele pula! Meu Deus cara, vai pra Las Vegas! Será que não podiam pelo menos ter disfarçado isso né? E fala a verdade, a garotinha usou fraldas no início do filme só como pretexto para fazer a piada de fechamento da produção...
Parabéns também à equipe de product placement que não tentou esconder nada. A Sony deve ter pago um dinheirão para que todos os notebooks no filme fossem Sony Vaio. Não vou nem falar do carro Bentley. Aliás, quanto a Globo pagou para aparecer no filme? Para piorar todo termo americano foi traduzido como algo "familiar" à cultura brasileira, o que soa ridículo (trocar Kumbaya por "cantar um coro"), já é tempo de estarmos familiarizados com os termos usuais dos filmes que vemos, não precisa inventar termos abrasileirados.
Filmes encomendados à parte, os efeitos especiais são muito bem feitos, é fantástico ver toda a destruição tão bem produzida pela equipe de pós-produção (com exceção dos cromaquis - fundos verdes - quando os atores estão em cena, principalmente viajando de carro, muito mal feito). Não vejo a hora de receber minha revista Cinefex para ver como foram feitas as cenas de desabamento.
O que ainda me incomoda nos efeitos de certos filmes como este e Avatar, é o uso de técnicas de renderização de radiosidade e/ou tipo v-ray que fazem com que todas as cenas de efeitos tenham um tom escurecido, acinzentado e com sombras exageradas. Você nunca vê uma cena de efeitos em campo muito aberto, muito de perto e/ou com luz do sol muito evidente. Isso iria deixar o visual de 2012 com cara de Toy Story.
Minha reclamação vai mais uma vez à equipe do Cinemark Botafogo que estava extremamente desorganizada neste dia pois não conseguiram administrar a quantidade de pessoas nas salas de cinema para ver o filme Avatar.
Poucos funcionários e medo de que pessoas entrassem em salas sem pagar fez com que fossemos enviados a porta de emergência para sair pela parte de trás das salas, sem ninguém da rede Cinemark para nos guiar pelas escadas. Tinham velhinhas nas salas com netos que estavam com dificuldade de descer as escadarias e diversas pessoas perdidas sem saber como sair no mesmo andar em que estavam. Cinemark está cada vez mais piorando os seus serviços, esta minha experiência foi péssima.
Crítica: Avatar 3D
quinta-feira, dezembro 24, 2009
Por um milagre daqueles que acontecem de repente, consegui ver Avatar em 3D na primeira semana. Um amigo comprou os ingressos com antecedência e não pôde ver, portanto o ingresso a mais ficou para mim. Cinema lotado, semana lotada, Avatar é a sensação da semana nos cinemas de todo o país. É um deleite visual tanto para o cinéfilo quanto para os que vão ao cinema por passatempo. Mesmo sabendo que não passa de um exercício de James Cameron para testar a nova tecnologia, vale a pena conhecer o mundo de Pandora, seus clichés, sua semelhança com outros filmes ou os sons e modelos 3D aproveitados pela Industrial Light & Magic (ILM) a partir de outros filmes feitos no passado.
Antes, um pouco de história do cinema. Lawrence da Arábia (Peter O'Toole) é enviado como espião para verificar o avanço dos árabes na luta contra os turcos durante a I Guerra Mundial. Lawrence eventualmente consegue unir várias tribos árabes na luta contra o império otomano ao lado de um general britânico. Agora pense bem. Um estrangeiro é enviado para conhecer e espionar um povo. Este se identifica com a cultura e com a causa e, através do seu carisma e vitórias, consegue unir tribos para lutar por um objetivo em comum.
Avatar conta a história do fuzileiro naval Jake Sully que fica paraplégico no campo de batalha. Seu irmão é um cientista em um projeto secreto do governo na busca de novas fontes de energia em um planeta distante. Neste planeta os cientistas humanos tentam uma aproximação maior com os nativos, os Na'vi, se passando por seres da espécie através de uma técnica chamada Avatar. Os avatares são corpos alienígenas criados geneticamente mas que não possuem consciência, ou seja, são inertes até que uma consciência humana seja transmitida a eles por um sofisticado maquinário que lembra Matrix.
O irmão de Jake morre em campo, e como o avatar está programado para o DNA da família, só Jake, irmão gêmeo, pode substituir o irmão no controle do ser. Jake aceita a missão e trabalha para os cisntista enquanto uma empresa inescrupulosa e um general linha-dura pedem que ele investigue o povo desconhecido e suas intenções de se mudar do local onde há mais minérios. Eventualmente Jake simpatiza com a raça indígena local e resolve protegê-los custe o que custar.
Diferente de técnicas convencionais de motion-capture como as utilizadas por Robert Zemeckis (revolucionárias na época), onde o ambiente digital é adicionado após os atores, a nova camera de James Cameron permite observar nos monitores como os personagens virtuais interagem com o mundo digital, tudo em tempo real, da mesma forma como é filmado em locações reais. É possível voar por cima da cena, mudar ângulos, é como uma miniatura viva.
Outra técnica é um novo recurso que permite captar expressões faciais com uma câmera na frente da face do ator transmitindo os movimentos ao computador. Também era possível aos atores interagir com os seres virtuais no set de filmagem. Peter Jackson, Steven Spielberg e Geroge Lucas chegaram a visitar os sets de Avatar para ver a nova tecnologia em operação.
Agora vamos parar para analisar o áudio-visual. Por ser um exercício, talvez James Cameron não tenha se preocupado em disfarçar certas "reciclagens" de outros filmes. Os sons dos animais na floresta de Pandora são exatamente os mesmos utilizados na série Jurassic Park. Os gritos do velociraptor, o ataque do T-Rex, todos os sons foram aproveitados de forma explícita. Muitos dos modelos 3D de naves e mechas (lê-se 'mekas', os robôs que permitem um homem dentro), são aproveitados de filmes como Matrix (nã osei se a ILM fez Matrix, mas o conceito é idêntico).
Os Na'vi são o povo de Apocalypto de Mel Gibson (a diferença é que, diferente de George Lucas que cortou os Wookies no meio para fazer Ewoks, Cameron fez um smurf gigante). Ah, e tem a comemoração do final do Retorno de Jedi quando a batalha é ganha (alguém falou nas casas iluminadas no topo das árvores?).
Alguns clichés são as cenas de romance (como a alienígena sabia o que era um beijo?), o se apaixonar por outra espécie, o estrangeiro (ou inapto) ser o "the chosen one", Jake dominar uma fera alada que só os grandes da tribo já tinham domado, o general louco que força a barra da guerra e ainda o homem de negócios interpretado por Giovani Ribisi que lembra o personagem de Paul Reiser em Aliens (toda vez que Sigourney Weaver levantava da cama do avatar e acendia um cigarro eu me lembrava da Sgt. Ripley).
Não senti muita diferença no uso do 3D, apesar de meus amigos terem percebido mais efeitos de profundidade do que eu. A impressão que tive é de assistir ao antigo brinquedo americano View Master, só que em uma tela grande. Claro que muitas cenas levantaram piadas. A pintura de Jake que nem a do grupo Timbalada, onde estavam os Na'vi gordos, a Ana Lucia de Lost (Michelle Rodriguez), Sam Worthington que não consegue ser humano no cinema, os Nazguls (Senhor dos Anéis) pilotados pelos Na'vi, as plantas de fibra ótica, a árvore da vida do parque da Disney, entre outros. Ainda me incomoda todo alienígena do cinema ser humanóide (o que em Avatar é até que justificável). A semelhança com atores reais foi desnecessária (a cara de Sigourney Weaver no Na'vi vai me dar até pesadelos).
Reaproveitamentos a parte, o filme tem um visual fantástico e uma idéia forte sobre a ligação com a natureza. Pandora não mostra a baboseira espiritual de "Gaia" ou qualquer outra teoria hippie de conexão com a Terra, a união dos Na'vi com seu mundo, plantas e animais, é física, é uma rede neuronal, é algo palpável e real. O design é maravilhoso, a criação de híbridos de criaturas com plantas, a floresta detalhista, o trabalho de 3D super elaborado, tudo acrescenta à obra de Mr. Cameron.
Meus parabéns aos cinemas da rede Kinoplex (fui no da Tijuca pela primeira vez). Não achei as cadeiras tão confortáveis, mas as salas são excelentes, tudo bem organizado e as pessoas viram o filme quietas, sem falar muito ou comer pipoca do meu lado (thank god...). Os novos cinemas do grupo Severiano Ribeiro são uma boa opção contra os cinemas da rede Cinemark que não acompanharam as mudanças visuais e organizacionais das salas mundiais.
[Avatar Dublado]
Esta semana fui ver Avatar de novo, desta vez dublado, no UCI do New York City Center na Barra da Tijuca. Ver o filme dublado permite reparar em diversos elementos da construção visual que antes passaram despercebidos por causa das legendas. Mesmo falando inglês desde os 8 anos de idade, é difícil desviar os olhos daquela coisa amarela piscando na área inferior da tela, acaba chamando muito a atenção, como um banner chato.
No inicio você se sente estranho pois, além da falta de sincronização labial, as vozes parecem não pertencer ao filme. A trilha dos diálogos é eliminada mantendo os efeitos sonoros, mas percebe-se claramente que foram gravações diferentes, usando equipamentos diferentes, pois a dublagem é mais nítida e menos "estéreo" do que os demais sons. Entretanto, depois de uns 20 minutos já não se repara mais.
Claro que as falas dos Na'vis não foram dubladas, uma vez que a censura do filme é de 12 anos. Uma pena ver pais descerebrados levando crianças de menos de 9 anos para um filme destes sem saber do que se trata. Havia várias crianças pequenas na sala para ver os "bichinhos azuis", e quando a batalha realmente começa você vê os pais tapando os olhos das crianças, olhando de rabo de olho, levando a criança para fora do cinema ou reclamando da violência.
Pais, por favor verifiquem a censura! Na censura de 12 anos, menores podem entrar com os pais, mas isso não significa que se pode levar uma criança de 4 anos para ver pessoas explodindo, levando flechadas e se agredindo. Mas para pais aculturados, se o McDonalds vende os bichinhos então é filme de criança (da mesma forma que desenhos animados e quadrinhos adultos). Esses pais qualquer dia vão comprar gibi do Milo Mainara para seus filhos "por engano".
Creio que o problema maior na dublagem foram os dubladores conhecidos. A voz do chefe da mineradora é feita por Nizo Neto, o filho de Chico Anysio e dublador de Ferris Bueller. Toda vez que Nizo abria a boca eu lembrava de Matthew Broderick. Não encontrei quem foram os demais dubladores, mas a direção foi feita por Guilherme Briggs. E por favor caro Guilherme, por que os Na'vis falavam com sotaque de Recife? Tudo bem, meu pai é de Pernambuco, mas fica difícil engolir esses aliens com sotaque nordestino.
Apesar da dublagem não atrapalhar, a tradução é perturbadora. A péssima tradução poderia ser feita de forma limpa, clara, no entanto a tradução me lembrou Batman quando Robin grita Kawabanga e aqui foi traduzido como "Uh tererê". Durante todo o filme você vai escutar gírias cariocas e outras expressões brasileiras como "vamos nessa", "sujou", "filhinha, este é meu video", "meu querido", "chocante", "manero", "beleza", entre outras. Isso é um grande erro até por que gírias são organismos vivos, daqui a cinco anos os adolescentes vão querer ver o filme e não vão entender. Opte por coisas neutras e seu trabalho se torna atemporal e menos ridículo. Por isso existem as dublagens toscas que vemos hoje na TV, de filmes como De Volta para o Futuro, tudo refeito. Saudade das dublagens clássicas...
Apesar da raiva de ter meus dois primeiros parágrafos apagados pelo Blogger (blogspot) por erro de sistema do Google, esta foi uma tentativa de replicar os dois primeiros parágrafos deste texto de atualização. É complicado quando você desenvolve uma linha de pensamento e os responsáveis pelo sistema não criam um mecanismo eficiente de backup que salve o seu texto em casos de crash no servidor ou erros de desenvolvimento.
Crítica: Nova York Eu te Amo
segunda-feira, dezembro 21, 2009
É cada vez mais difícil ver um filme no Grupo Estação uma vez que a maioria dos filmes só são lançados nos cinemas cariocas com grande atraso em relação ao mercado estrangeiro, o que acaba me levando a ver os filmes com antecedência de outras formas (nada de pirataria por favor, há outros meios de ver filmes inéditos no Brasil). Quando falo atraso, são grandes atrasos, meses. Mas hoje tive a sorte de ver um filme que há muito esperava, "Nova York, Eu Te Amo" (New York, I Love You, 2009).
O filme faz parte de um projeto do francês Emmanuel Benbihy entitulado "Cities of Love", e já teve seu primeiro título em "Paris, Eu Te Amo" (Paris, je t'aime). Inclusive haverá o "Rio, Eu Te Amo", no mesmo estilo (confira: http://www.omelete.com.br/Rio_Eu_Te_Amo), pequenas histórias de amor (no sentido de afeto e não necessariamente romance), interligadas pela vontade humana de fazer parte da vida do outro, de ser aceito, de manter a felicidade e fazer a coisa certa (mesmo quando se faz as coisas erradas).
O filme lembra diversos filmes de "contos da cidade", muitos inclusive recentes, onde os personagens não se conhecem mas de alguma forma possuem ligações e aos poucos percebem como até um enconto casual pode mudar a vida de quem conversa conosco por 2 minutos, mesmo sem nunca nos tornarmos íntimos. É talvez um novo gênero, digo, um gênero antigo que se firma no ideal cult de Hollywood (onde mais você conseguiria juntar tantos atores talentosos? Em 2012? Não creio...).
Todos os pequenos trechos são excelentes, mas me emocionou mais o garoto no baile de formatura, a conversa entre a judia e o indiano, e ainda o casal de velhinhos. Outro episódio com Hayden Christensen mostra que em NY, você sempre vai achar alguém melhor que você. Já a judia interpretada por Natalie Portman, junto ao indiano Irrfan Khan (Natalie é israelense de verdade) mostra as diferenças entre pessoas, entre culturas, as perguntas dos porquês e ao mesmo tempo a aceitação das tradições com um sorriso no rosto. Acho que esta é a melhor definição de Nova York, um local onde as culturas se entendem e onde tudo pode acontecer.
O melhor deste estilo não são apenas as mensagens, mas a aula de teatro que faria Stella Adler e Stanislavski sorrir em suas tumbas (pardon Lovecraft), uma aula de interpretação e um exercicio e respiro mais do que merecido para alguns atores que são obrigados a fazer filmes para o senso comum (de vez em quando), para sobreviver ao seu estilo de vida. Você pode ver a lista de atores no IMDB (http://www.imdb.com/NY) .
Destaco a linda e doce Blake Lively no papel da menina deficiente e a linda, inteligente e talentosa Natalie Portman. Esses elogios não são de fã e nem despropositados, Natalie pula de um blockbuster a um filme de arte, da atuação a direção, de ensaios fotográficos da alta costura à cabeça raspada em V de Vingança, da conversa boba e besteirol para a seriedade da psicologia que aprendeu em Harvard. Se encontrarem uma "Natalie" no Brasil por favor me apresentem. Frau Portman inclusive dirige um dos episódios de "Nova York, Eu Te Amo". Não jogaria fora também Emily blunt, minha nova Zooey Deschanel.
Quem está muito em alta agora, além de Shia LeBouf, é Anton Yelchin. Depois de Chekov em "Star Trek" e Kyle Reese em "Exterminador, A Salvação", Anton entra em mais um filme destaque da temporada.
Mais elogios e gratidão vão também a Anthony Minghella pelos grandes filmes e por um dos episódios mais emocionantes desta obra onde uma atriz reflete todo o seu passado esquecido pelo mundo, na criação de um garoto deficiente (Shia LeBouf) auxiliar do hotel (se eu explicar estrago a reflexão). O bom deste episódio é ver novamente o saudoso John Hurt.
Se você gosta de entender a atuação, o processo narrativo e os estilos de diretores, como eu gosto, não perca "Nova York, Eu Te Amo". Nota de rodapé, visitar Nova York o mais rápido possível, pegar o tour cinematográfico e voltar lá diversas vezes!
Uma pena que ainda se encontre problemas básicos nos cinemas do Grupo Estação como a visualização das cadeiras na compra do ingresso não corresponderem ao posicionamento dos assentos nas salas, obrigando você a escolher às cegas se não conhecer o recinto. Outro problema é um grupo de tradição artística, de filmes cult, se render aos comerciais antes do filme. Se estou pagando R$ 16,00 para entrar, tenho o direito de não ver propagandas para que o cinema ganhe ainda mais dinheiro às minhas custas.
Crítica: A Onda (Die Welle)
domingo, novembro 08, 2009
Normalmente eu não elaboro críticas de filmes que vejo em casa, mas apesar de me incomodar filmes repetitivos (cujo conceito já foi trabalhado diversas vezes), os filmes europeus que envolvem estudantes em uma posição crítica da sociedade sempre me surpreendem. Aconteceu recentemente com Entre os Muros da Escola, e agora novamente com A Onda (Die Welle). O filme é baseado em fatos reais, uma experiência chamada "The Third Wave" onde o professor Ron Jones questionou seus alunos sobre a origem de um movimento como o nazismo. A história já foi retratada em 1981 em um média-metragem para a TV.
A Onda fala de uma escola alemã (note que na Alemanha a maioria das escolas é mista, ou seja, não há uma divisão entre ricos, pobres, classe média, na maioria das vezes todos estudam juntos). Na escola, diferente do Brasil, os alunos são obrigados a escolher matérias eletivas, e uma dessas matérias é política, cuja classe é dividida entre autocracia e anarquia. O Prof. Wenger é um roqueiro invicto e quer pegar a turma de anarquia, mas o direto da escola o coloca entre os autocratas.
Wenger tem a idéia de lançar uma pergunta, seria possível um movimento ditatorial fascista surgir novamente na nova Alemanha? Os alunos dizem que não, dizem que deve-se viver para o povo e pelo povo. Nesta construção de comunidade, o preconceito contra os de fora, a expulsão de "traidores", a recriminação de idéias progressistas, tudo começa a sair do controle de Wenger até um ponto em que a massa se torna atraente demais para ser freada.
Como sempre digo, em arte nada se cria, portanto as referências estão espalhadas pela produção. As camisas brancas criticando o movimento Rosa Branca (critica-se o poder, mas se você estivesse no poder, o que aconteceria, seria a mesma coisa?), o filme de Julia Jentsch como Sophie Scholl (os panflhetos espalhados pela escola), os documentários nazistas (a câmera atrás da cabeça do professor mostrando a turba obediente), o garoto problemático (que me lembra Gus Van Sant), entre outras referências e técnicas clássicas do cinema ficção e documental.
S
POILER - Certas coisas no filme são um pouco forçadas. O garoto geek que é perturbado e leva armas para a escola, os bullies, os punks produzidos, os grupos em A Onda são estereótipos da sociedade alemã que normalmente você não vê com tanta frequencia andando pelas ruas (talvez nas cidades maiores).Também os alunos podendo perambular pela escola no meio da noite para tirar cópias e usar equipamentos escolares, e ainda, grafitar toda a cidade só correndo pelas ruas. Será que isso é tão fácil numa grande cidade alemã? Eu não vi isso quando fiquei lá por um mês.
já citei em posts anteriores o problema manipulado por Anna Freud. O descontentamento das massas, o desemprego, inflação, pobreza, enstrangeiros, existem diversos motivos para que pessoas descontentes sucumbam às idéias de um líder influente. Vemos isso nas prisóes americanas, na II Guerra Mundial, em países comunistas e socialistas, e em diversas outras situações. o problema não é julgar o movimento, a ideologia, o problema são as pessoas, estamos lidando com seres humanos que possuem comportamentos estranhos quando em cojunto, e mesmo o líder toma a posição do controlador, o führer, todas os seus julgamentos se tornam deturpados e inconsequentes.
Citando casos recentes, como a diretoria de uma universidade como a UNIBAN controlaria uma turba de estudantes caçoando de uma colega ou chutando o carro de outra? Melhor, por que a diretoria abraça a causa da massa e julga as estudantes sem reprimir o grupo? Não pense nisso como uma revolta, mas como um experimento psicológico. Você usaria a demagogia para apoiar e ter apoio do grupo, ou protegeria o outsider? No Brasil os políticos usam da demagogia para atrair os descontentes, e talvez só não chegue a uma ditadura por causa das pressões internacionais (quem conhece história sabe que o Brasil sempre jogou dos dois lados, Olga que o diga).
Destaque para a atriz brasileira Cristina do Rego, a rebelde rastafari que contesta o professor. Também as lindas atrizes alemãs Jennifer Ulrich, Odine Johne e Amelie Kiefer. Nota pessoal, o visual dos atores e locações está mais para subúrbio inglês do que o universo alemão (mesmo das cidades pequenas).
O média-metragem de 1981: http://www.youtube.com/watch?v=fwZdYuqKGdE&feature=related
O experimento original: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Third_Wave (em inglês)
Crítica: Distrito 9
sábado, novembro 07, 2009
Quando fiz mestrado tive um professor chamado Ronaldo. O Prof. Ronaldo fez com que nós fizéssemos um exercicio em ergonomia chamado "Caminhada da Empatia". A caminhada da empatia consiste em uma entrevista informal e amiga com alguém fora de sua realidade, social, cultural, emocional, etc. Esta pode ser uma prostituta, um morador de rua, um travesti, um refugiado, um morador de bairros perigosos, qualquer um cujo choque de realidade seja suficiente para mudar sua forma de pensar em relação ao outro, sobre aquelas coisas que você acha que aquelas pessoas são ou fazem.
Distrito 9 é um filme político. A novidade foi trazer a ficção científica para falar abertamente sobre o que podemos ver em qualquer país, inclusive no Brasil. Seja o medo daquilo que é "estrangeiro", o descaso com o que não nos afeta ou a perda de civilidade de um grupo que perdeu as esperanças dentro de um universo contra o qual eles não conseguem lutar.
Não é só contra grupos marginalizados. Quando sento em uma mesa com amigos mais tímidos, ou que não conhecem ninguém, puxo estes para dentro da conversa, nunca os deixo deslocados, mas creio que essa "marginalização" do próprio "amigo" acontece com muita gente sem mesmo perceberem. A própria empatia de uma autoridade menor, como um policial de rua, com um individuo pobre, mostra como a truculência pode sair ao controle (Zimbardo em Stanford que o diga, será que amizade depende de uma situação de igualdade? Não se pode ser amigo do diferente? Do menos hábil?).
Distrito 9 trata de uma nave alienígena que quebra em cima da cidade de Johannesburgo na África e paira por 3 meses até que o governo decide abrir suas portas lacradas. O governo descobre entãio que estão diante de quase 1 milhão de seres em más condições pois por 3 meses não tiveram comida, energia, produtos de higiene, como náufragos em terras desconhecidas. As autoridades decidem trazê-los para o chão e cria um assentamento embaixo da nave.
Aos poucos o assentamento se transforma em uma enorme favela descontrolada, grades e muros são colocados no entorno, a violência é enorme, a criminalidade se acentua. Para resolver este problema o governo decidade que fará um reassentamento dos alienígenas em outra região, mas para isso tem que despejá-los e deslocá-los, o que não é de interesse dos ETs. Ao bater de porta em porta na favela junto a uma tropa de choque, o chefe da operação entre em contato com uma substância diferente é daí começa a ação.
Atenção, SPOILERS. Como pode se ver no filme, a empatia só aconteceu no momento em que um humano começou a se transformar em um dos seres oprimidos. Todo o preconceito e pré-conceitos sumiram dando lugar a uma guerra por proteção aos direitos, um sentimento que creio eu muitos sentem ao decidir proteger o próximo.
Um bom exemplo são mães de classe média alta da zona sul carioca se juntando a mães pobres da Vila do João por que ambos filhos sumiram ou foram mortos por causa da violência. A empatia, a consciência da existência parece só ser percebida quando precisamos passar pelas mesmas emoções de perda.
A mensagem do filme é muito boa, mas esteja avisado que o filme é extremamente violento. E não podia ser diferente. A violência não é gratuita, ela é contextual e, sem quere entrar no mérito de citar Anna Freud e Edward Bernays, o maior medo do governo americano pós depressão e no pós-gerra, era que a população saísse de controle por causa de ansiedades, depressão, tristezas, o American Way of Life foi um produto de pesquisas onde foi implantado um sistema comportamentalista para que o americano comum estivesse feliz com sua condição, apoiasse o governo, apoiasse o crescimento.
Isto não é um discurso Marxista (odeio intelectual de botequim), mas se você ver (ou baixar na internet) documentários de Adam Curtis, vai ver que isso foi real e bizarro. Como controlar uma população que pode ficar descontente e sair do controle, sem necessariamente ter que gastar dinheiro com eles? Pela força? Julgando criminosos somente pela "falta de caráter"? Parece que as autoridades e senso comum acham que sim.
Você começa o filme simpatizando com a própria raça, no meio fica na balança, mais para o final fica do lado dos aliens e no final do filme torce para que Peter Jackson produza a parte II e Christopher volte com seu filho após 03 anos para resgatar seus compatriotas.
O filme não é tão bom assim, é um típico filme com uma idéia excelente e um encadeamento ruim. O chefe da operação parece mais um personagem de Sacha Baron Coen e os alienigenas são nojentos e rápidos demais para ajudar o espectador a compreender melhor a cena sem se preocupar em perder a história ou virar o rosto.
SPOILER - Se não bastasse isso, ainda tem o exoesqueleteo da tenente Ripley, ou um mecha de Ex-Machina no final do filme. Também não me agrada muito este conceito artistico de todo alineígena ter que parecer um inseto e ser nojento (foi feito para ampliar a repulsa do espectador que fica na balança?). O filme também me lembrou o mexicano La Zona de Rodrigo Plá por causa da expansão da favela e isolamento do problema.
Bem, em Hollywood nada se cria, tudo se copia. Nota 10 por terem escolhido Johannesburgo como locação. Manteve os curiosos longe das filmagens, usou pessoas da região e conseguiu transformar o filme em surpresa, algo que em Hollywood é quase impossível hoje em dia com todos os papparazi, jornalistas, curiosos, fãs e outros que estragam a emoção do boca-a-boca que existia nos anos 70 e 80.
Crítica: Bons Costumes
sexta-feira, novembro 06, 2009
Parece que os melhores filmes que vejo sempre são aqueles que eu descubro quando vou ao cinema sem intenção, sem planejar, de surpresa. Hoje tive que esperar alguns amigos por duas horas e para matar o tempo resolvi entrar no Espaço de Cinema do Grupo Estação para ver Bons Costumes (Easy Virtue), um filme de época na melhor tradição inglesa.
Eu tinha duas horas, portanto tinha que ser o filme que estivesse começando naquele minuto. Li no cartaz que era com a Jessica Biel e comprei meu ingresso (Jessica não teve lá um inicio de carreira muito bom, mas por que não testá-la mais uma vez se O Ilusionista foi tão bom?).
Apesar de desde meus 8 anos de idade a minha relação com o inglês ter sido 80% dentro da cultura americana, me fascina o jeito inglês do inicio do século 20. A pomposidade, o sotaque aristocrata e é claro, as mentes livres que ousavam transgredir a sociedade (muito comum nos E.U.A., mas raro em terras britânicas). Este filme não tem nada de novo. Você já viu a aristocracia inglesa em diversos filmes, Adorável Julia, Howard's End, Muito Barulho por Nada, mas é sempre um prazer ver no cinema interpretações dignas de palcos shakesperianos e fazendo valer tudo o que Stanislavski escreveu.
Você vai ver o choque da cultura americana free spirit, a mãe manipuladora (pode-se dizer que a sociedade inglesa era matriarcal por suas rainhas?), as "irmãs de Cinderela" que nunca conseguem nada e são vencidas pela outsider, e o marido infeliz que é indiferente (mas não covarde) aos problemas do orgulho besta do restante da família.
Há muito tempo aguardava ver Dorian Grey com Ben Barnes (o príncipe Caspian de Narnia) e Colin Firth, mas velos juntos em mais um filme foi uma boa surpresa. Kristin Scott Thomas (A Outra - Boleyn Girl) deixa de lado o papel da mulher bonita sedutora da década de 90 e amadurece em papéis que até então eram dados para mulheres como Helen Mirren. O elenco de apoio, criados, vizinhos, trazem um toque de humor e de sarcasmo digno dos melhores textos de Oscar Wilde.
Não preciso nem falar muito de Jessica Biel. São aqueles filmes que te fazem perguntar se essas mulheres são assim mesmo na vida real. Um deleite visual ver as roupas de época no corpo curvilíneo da namorada de Justin Timberlake.
O filme valeu cada centavo (ainda mais agora sem carteira de estudante), e eu ainda saí do cinema pensando em tudo o que eu posso usar para forçar meu sotaque britânico. Um respiro em meio aos blockbusters que vi essa semana. Rosane Gofman, Tablado e CAL que me perdoem, mas se um dia os atores brasileiros não alcançarem esta excelência, tanto no talento quanto no ensino e aprendizado, sempre teremos os "atores de novela" fazendo cinema e teatro sem ter a mínima noção do que é interpretar para um público que quer mais cultura, e não mais do senso comum que atrai massas.
Crítica: Bastardos Inglórios
segunda-feira, novembro 02, 2009
Um bom artista sabe diversificar suas obras, ou seja, se sente bem com um novo "produto", algo diferente que possa lhe trazer experiência. Na minha profissão é ótimo fazer o design de sites de e-commerce tanto quanto é bom fazer um site para uma rádio, entretanto, manter-me nos e-commerce geraria uma estagnação das idéias a ponto de criar o vício em técnicas, referências, etc.
Bastardos Inglórios não é um filme ruim, é um “Tarantino” da melhor qualidade, mas não é possível deixar de ver uma cena sequer sem se perguntar: É Pulp Fiction? É Cães de Aluguel? O filme dividido em atos, acontecimentos não-lineares, a mulher que quer vingança, a música a la Ennio Morricone, o diálogo canastrão (em interpretações memoráveis e engraçadas), tudo está lá para você ver de novo.
Bastardos Inglórios conta a história de um grupo de soldados americanos descendentes de judeus que, como os boina verdes no Vietnam, entram em território inimigo com alguns poucos homens para uma missão suicida, neste caso, matar 100 alemães cada um. Ao mesmo tempo uma mulher judia, sobrevivente do massacre de judeus na França, se esconde em um cinema sob outro nome enquanto prepara uma vingança inesquecível para aqueles que mataram sua família. O destino de todos irá se cruzar de uma forma tragicômica que irá surpreender até Joachin Fest.
Ter um Tarantino novo nos cinemas é tão excitante quanto saber que Woody Allen, Almodovar ou Steven Spielberg estão lançando um novo filme. São diretores que costumam acertar em 80% das vezes (senão mais), independente se você acha um mais “comercial” que o outro. Cenas e frases viram cult, viram jargões, entram para a história. Mas e se você tem mais do mesmo?
Diria que isso é um problema, mas no caso destes diretores, a fórmula parece dar sempre certo. Você sabe o que vai ver a seguir, mas você não liga. Da mesma forma, os atores milionários também não ligam e lutam por uma vaga nas produções independentes ou de baixo orçamento de diretores consagrados.
Quem me conhece sabe que sou um admirador da cultura alemã e fiquei muito feliz em ver atores conhecidos do cinema alemão e austriaco como Christoph Waltz, Daniel Bruhl (de Edukators e Adeus Lenin),Til Schweiger (de Agnes e Seus Irmãos), Gedeon Burkhard (o inspetor de policia do seriado Kommissar Rex) e Christian Berkel (que interpretou nazistas em A Queda, Operação Valquíria, Milagre de Saint'Anna e agora Bastardos Inglórios).
Não obstante, ao lado deste fantástico elenco germânico estão pequenas estrelas da tv americana contracenando com um Brad Pitt fanfarrão, em um papel memorável. Destaque para B.J. Novak, astro da série remake The Office com Steve Carrel. E para mais uma vez firmar minha crença, Melanie Laurent aparece em tela provando que as mulheres francesas são mais naturais, mais bonitas, mesmo sem maquiagem e despenteadas
Clichés "tarantinescos" a parte, Bastardos é um exercício dentro de um gênero que está sem criatividade desde que O Resgate do Soldado Ryan chegou aos cinemas em 1998. Não que seja algo novo, é o Quentin de sempre, mas ver guerra ao estilo Quentin, Luciano Vincenzoni, Sergio Leone e John Ford, não tem preço. Chega de câmeras pulando, películas desbotadas e recrutas gritando pela mãe, os Bastardos querem se vingar, ver sangue, tortura, escalpos, sem pedir para voltar para casa (e tudo ao som de David Bowie).
Claro que nenhum oficial do socialismo nacional iria agir como Christoph Waltz, mas assim como em O Grande Ditador ou Primaver para Hitler, é ótimo ver um nazista bem-humorado com sua própria condição de carrasco, lutando para sobreviver, não importa de que lado esteja.
Uma das cenas finais com Brad Pitt e Waltz ao rádio com o oficial americano é uma escola de teatro. Aliás, que me desculpem aqueles que não falam inglês (ou que não gostam de legendas), mas os sotaques e as entonações caricatas são 80% da diversão.
Trazer de volta esta "fanfarronice" nos diálogos, típica dos filmes da década de 40 e 50, foi uma ótima idéia para Bastardos. Até mesmo o aspecto sedutor de mulheres como Lauren Bacall está presente no último ato, na interpretação de Melanie Laurent. O queixo de Brad Pitt a la Marlon Brando é outra caracteristica sensacional da construção do personagem.
Enfim, assim como em Benjamin Button, não espere algo diferente (Button teve o mesmo escritor de Forrest Gump e isso ficou escancarado na tela), mas acredite, você vai se divertir muito, rir, torcer, ficar com raiva e até mesmo gravar algumas frases para o seu repertório. fique agora com a crítica de Isabela Boscov.