Crítica: Hulk (Edward Norton)

domingo, junho 15, 2008

Assim como no filme do Homem-de-ferro, o filme do Hulk procurou ser fiel aos quadrinhos, mas distanciando-o ao máximo da "sensação de quadrinhos" para tentar tornar a história do gigante esmeralda uma experiência que poderia acontecer enquanto você lê este texto. Apesar de Edward Norton se declarar um fã, o diretor Louis Leterrier fala claramente que nunca foi de ler as histórias de Hulk, mas era um grande fã do antigo seriado com Bill Bixby,´por isso neste filme o que se vê é muito parecido com a série de TV, Bruce Banner fugindo e se escondendo enquanto o exército americano o persegue por todo o mundo (a primeira sequencia do filme é bem longa e foi toda feita na favela Tavares Bastos no Rio de Janeiro com panorâmicas de helicóptero da Rocinha).

Muitos criticos estão dizendo que Hulk não chega aos pés de Homem-de-ferro, porém acho que se iguala em qualidade sim, prende bastante a atenção e mostra o que promete. Ficamos ainda mais curiosos para saber o que há nos 70 minutos que Leterrier disse ter cortado da edição final. A única crítica que tenho é em relação ao Brasil tratar estes filmes (como Narnia também) como filmes para crianças. Filmes de super-heróis e filmes como Nárnia estão saindo no Brasil em versão dublada e sem censura quando os mesmos filmes no Estados Unidos são lançados como PG13 (maiores de 13 anos). Isso gera cenas um pouco engraçadas (se não fossem tristes) de pais impressionados, olhando de rabo de olho para ver a reação da criança perante a violência, ou mesmo escondendo os olhos da criança durante o filme.

Estes pais, e mesmo aqueles que não conhecem quadrinhos ou livros de fantasia, têm que acordar para perceber que boa parte das obras em quadrinhos e da literatura fantástica não são histórias de criança! Pelo contrário, são pesadas, violentas e em alguns casos com cenas picantes. Aposto que nas primeiras cenas em que Hulk é metralhado de forma assustadora pelo exército americano dentro de uma fábrica, ou quando Bruce tenta se controlar durante o sexo com Betty, muita mãe se arrependeu de levar a criança... percam essa idéia!! Quadrinhos não são sempre coisa de criança (como veremos no filme Procurado com Angelina Jolie e James McAvoy).

SPOILERS, cuidado! Demais, as referências estão presentes em massa neste novo Hulk, a SHIELD inclusive é citada o tempo inteiro, até mesmo como patrocinadora das atividades do exército e da universidade de Betty. Stan Lee é o cara infectado no Brasil, por isso descobrem o paradeiro do Hulk. Lou Ferrigno (o Hulk da antiga série de TV) é o guarda da universidade onde Betty Ross trabalha, além de fazer a voz do golias verde nas poucas falas do filme. O Dr. Samuel Stern (o Líder, personagem cabeçudo do universo Marvel) está lá, e ao final cai aquela gotinha do sangue de Banner na cabeça dele (nos quadrinhos não é Stern, mas Samson que representa o Mr. blue. Samson é um médico psiquiatra infectado por um quantidade baixa da radiação, que ajuda Banner a lidar com o monstro. Ele tem apenas o cabelo verde e é bem forte).

Ao final do filme Bruce finalmente consegue se esconder e passa a controlar melhor o monstro, daí assume uma identidade falsa ao enviar uma carta para Betty, com o nome de David Banner (o nome de Bruce trocado na antiga série de TV para David). Para terminar as referências óbvias, Tony Stark aparece ao final do filme (você não precisa esperar os créditos terminarm) consolando o General Ross que afirma que nenhuma arma pode pegar o grande homem verde. Tony diz para o General que na verdade há algo sim, pois eles estão tentando formar uma equipe (referência aos Vingadores).

SPOILERS, quase esqueci! Sabe quando dizem que áparece o Capitão América? O que realmente aparece é o soro do supersoldado. Quando Emil Blomsky questiona o General Ross sobre a origem do monstro, este fala de um antigo programa que existe desde a 2ª Guerra para desenvolver o soldado perfeito. Na verdade Banner trabalhava numa continuação deste programa sem saber, Bruce achava que trabalhava numa nova forma de restaurar tecidos ou curar pessoas (algo assim). Ross pergunta a Blomsky se ele quer testar uma nova fórmula para o combate com o Hulk, Blomsky aceita e enfrenta o Hulk cara-a-cara dando saltos, ágil como um "Capitão América". Ele só se transforma no Abominável quando ameaça o Dr. Stern para injetar o sangue de Bruce nele.

Você também vai ouvir a música melancólica do seriado de TV que mostrava a angústia de Bruce em achar uma cura e não poder viver uma vida normal, nem com seu amor. O que chama mais atenção a quem leu histórias recentes nos quadrinhos são as referências a história Split Decisions (Mente Sombria, Coração das Trevas), escrita por Bruce Jones e ilustrada nos E.U.A. pelo brasileiro Mike Deodato, de onde saíram essas conversas entre Mr. Blue e Mr. Green e a fuga de Bruce, com direito a um monstro deformado muito parecido com a versão do Abominável para o cinema (o Abominável nos quadrinhos parece mais um grande peixe humanóide). Para terminar as referências menos óbvias, Leterrier faz referência a alegoria da caverna de Platão, presente na obra A República (livro VII):

Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder locomover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.

Os prisioneiros julgam que essas sombras eram a realidade. Um dos prisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza. A referência a obra de Platão acontece quando Hulk e Betty se escondem numa caverna na floresta e logo depois Bruce descreve no carro a sensação de se transformar no monstro como algo de outra realidade, o que aos poucos até o final do filme ele descobre que pode controlar.

Para terminar esse longo texto, vá ver o filme. Vale a pena mesmo que você não perceba as referência e se nuna foi fã de quadrinhos na adolescência. Claro que a experiência fica mais interessante se você conhecer as referências, mas o filme é bom e desmistifica a aura de "nerdismo" dos quadrinhos, atraindo pessoas que tem preconceito pelos quadrinhos para ver um filme que é derivado de um dos personagens mais clássicos da casa de idéias da Marvel. Boas histórias vêm de filmes, quadrinhos, livros, desenhos animados, qualquer mídia pode ser utilizada, portanto o preconceito e hipocrisia em relação a certas mídias deve acabar, afinal se você acha quadrinhos e desenhos coisa de crianças e nerds, para que você perde seu tempo com tanta avidez para ver o filme? Pense nisso...

Um comentário:

Alexandre Garcez disse...

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