Crítica: Avatar 3D

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Por um milagre daqueles que acontecem de repente, consegui ver Avatar em 3D na primeira semana. Um amigo comprou os ingressos com antecedência e não pôde ver, portanto o ingresso a mais ficou para mim. Cinema lotado, semana lotada, Avatar é a sensação da semana nos cinemas de todo o país. É um deleite visual tanto para o cinéfilo quanto para os que vão ao cinema por passatempo. Mesmo sabendo que não passa de um exercício de James Cameron para testar a nova tecnologia, vale a pena conhecer o mundo de Pandora, seus clichés, sua semelhança com outros filmes ou os sons e modelos 3D aproveitados pela Industrial Light & Magic (ILM) a partir de outros filmes feitos no passado.

Antes, um pouco de história do cinema. Lawrence da Arábia (Peter O'Toole) é enviado como espião para verificar o avanço dos árabes na luta contra os turcos durante a I Guerra Mundial. Lawrence eventualmente consegue unir várias tribos árabes na luta contra o império otomano ao lado de um general britânico. Agora pense bem. Um estrangeiro é enviado para conhecer e espionar um povo. Este se identifica com a cultura e com a causa e, através do seu carisma e vitórias, consegue unir tribos para lutar por um objetivo em comum.

Avatar conta a história do fuzileiro naval Jake Sully que fica paraplégico no campo de batalha. Seu irmão é um cientista em um projeto secreto do governo na busca de novas fontes de energia em um planeta distante. Neste planeta os cientistas humanos tentam uma aproximação maior com os nativos, os Na'vi, se passando por seres da espécie através de uma técnica chamada Avatar. Os avatares são corpos alienígenas criados geneticamente mas que não possuem consciência, ou seja, são inertes até que uma consciência humana seja transmitida a eles por um sofisticado maquinário que lembra Matrix.

O irmão de Jake morre em campo, e como o avatar está programado para o DNA da família, só Jake, irmão gêmeo, pode substituir o irmão no controle do ser. Jake aceita a missão e trabalha para os cisntista enquanto uma empresa inescrupulosa e um general linha-dura pedem que ele investigue o povo desconhecido e suas intenções de se mudar do local onde há mais minérios. Eventualmente Jake simpatiza com a raça indígena local e resolve protegê-los custe o que custar.

Diferente de técnicas convencionais de motion-capture como as utilizadas por Robert Zemeckis (revolucionárias na época), onde o ambiente digital é adicionado após os atores, a nova camera de James Cameron permite observar nos monitores como os personagens virtuais interagem com o mundo digital, tudo em tempo real, da mesma forma como é filmado em locações reais. É possível voar por cima da cena, mudar ângulos, é como uma miniatura viva.

Outra técnica é um novo recurso que permite captar expressões faciais com uma câmera na frente da face do ator transmitindo os movimentos ao computador. Também era possível aos atores interagir com os seres virtuais no set de filmagem. Peter Jackson, Steven Spielberg e Geroge Lucas chegaram a visitar os sets de Avatar para ver a nova tecnologia em operação.

Agora vamos parar para analisar o áudio-visual. Por ser um exercício, talvez James Cameron não tenha se preocupado em disfarçar certas "reciclagens" de outros filmes. Os sons dos animais na floresta de Pandora são exatamente os mesmos utilizados na série Jurassic Park. Os gritos do velociraptor, o ataque do T-Rex, todos os sons foram aproveitados de forma explícita. Muitos dos modelos 3D de naves e mechas (lê-se 'mekas', os robôs que permitem um homem dentro), são aproveitados de filmes como Matrix (nã osei se a ILM fez Matrix, mas o conceito é idêntico).

Os Na'vi são o povo de Apocalypto de Mel Gibson (a diferença é que, diferente de George Lucas que cortou os Wookies no meio para fazer Ewoks, Cameron fez um smurf gigante). Ah, e tem a comemoração do final do Retorno de Jedi quando a batalha é ganha (alguém falou nas casas iluminadas no topo das árvores?).

Alguns clichés são as cenas de romance (como a alienígena sabia o que era um beijo?), o se apaixonar por outra espécie, o estrangeiro (ou inapto) ser o "the chosen one", Jake dominar uma fera alada que só os grandes da tribo já tinham domado, o general louco que força a barra da guerra e ainda o homem de negócios interpretado por Giovani Ribisi que lembra o personagem de Paul Reiser em Aliens (toda vez que Sigourney Weaver levantava da cama do avatar e acendia um cigarro eu me lembrava da Sgt. Ripley).

Não senti muita diferença no uso do 3D, apesar de meus amigos terem percebido mais efeitos de profundidade do que eu. A impressão que tive é de assistir ao antigo brinquedo americano View Master, só que em uma tela grande. Claro que muitas cenas levantaram piadas. A pintura de Jake que nem a do grupo Timbalada, onde estavam os Na'vi gordos, a Ana Lucia de Lost (Michelle Rodriguez), Sam Worthington que não consegue ser humano no cinema, os Nazguls (Senhor dos Anéis) pilotados pelos Na'vi, as plantas de fibra ótica, a árvore da vida do parque da Disney, entre outros. Ainda me incomoda todo alienígena do cinema ser humanóide (o que em Avatar é até que justificável). A semelhança com atores reais foi desnecessária (a cara de Sigourney Weaver no Na'vi vai me dar até pesadelos).

Reaproveitamentos a parte, o filme tem um visual fantástico e uma idéia forte sobre a ligação com a natureza. Pandora não mostra a baboseira espiritual de "Gaia" ou qualquer outra teoria hippie de conexão com a Terra, a união dos Na'vi com seu mundo, plantas e animais, é física, é uma rede neuronal, é algo palpável e real. O design é maravilhoso, a criação de híbridos de criaturas com plantas, a floresta detalhista, o trabalho de 3D super elaborado, tudo acrescenta à obra de Mr. Cameron.

Meus parabéns aos cinemas da rede Kinoplex (fui no da Tijuca pela primeira vez). Não achei as cadeiras tão confortáveis, mas as salas são excelentes, tudo bem organizado e as pessoas viram o filme quietas, sem falar muito ou comer pipoca do meu lado (thank god...). Os novos cinemas do grupo Severiano Ribeiro são uma boa opção contra os cinemas da rede Cinemark que não acompanharam as mudanças visuais e organizacionais das salas mundiais.



[Avatar Dublado]

Esta semana fui ver Avatar de novo, desta vez dublado, no UCI do New York City Center na Barra da Tijuca. Ver o filme dublado permite reparar em diversos elementos da construção visual que antes passaram despercebidos por causa das legendas. Mesmo falando inglês desde os 8 anos de idade, é difícil desviar os olhos daquela coisa amarela piscando na área inferior da tela, acaba chamando muito a atenção, como um banner chato.

No inicio você se sente estranho pois, além da falta de sincronização labial, as vozes parecem não pertencer ao filme. A trilha dos diálogos é eliminada mantendo os efeitos sonoros, mas percebe-se claramente que foram gravações diferentes, usando equipamentos diferentes, pois a dublagem é mais nítida e menos "estéreo" do que os demais sons. Entretanto, depois de uns 20 minutos já não se repara mais.

Claro que as falas dos Na'vis não foram dubladas, uma vez que a censura do filme é de 12 anos. Uma pena ver pais descerebrados levando crianças de menos de 9 anos para um filme destes sem saber do que se trata. Havia várias crianças pequenas na sala para ver os "bichinhos azuis", e quando a batalha realmente começa você vê os pais tapando os olhos das crianças, olhando de rabo de olho, levando a criança para fora do cinema ou reclamando da violência.

Pais, por favor verifiquem a censura! Na censura de 12 anos, menores podem entrar com os pais, mas isso não significa que se pode levar uma criança de 4 anos para ver pessoas explodindo, levando flechadas e se agredindo. Mas para pais aculturados, se o McDonalds vende os bichinhos então é filme de criança (da mesma forma que desenhos animados e quadrinhos adultos). Esses pais qualquer dia vão comprar gibi do Milo Mainara para seus filhos "por engano".

Creio que o problema maior na dublagem foram os dubladores conhecidos. A voz do chefe da mineradora é feita por Nizo Neto, o filho de Chico Anysio e dublador de Ferris Bueller. Toda vez que Nizo abria a boca eu lembrava de Matthew Broderick. Não encontrei quem foram os demais dubladores, mas a direção foi feita por Guilherme Briggs. E por favor caro Guilherme, por que os Na'vis falavam com sotaque de Recife? Tudo bem, meu pai é de Pernambuco, mas fica difícil engolir esses aliens com sotaque nordestino.

Apesar da dublagem não atrapalhar, a tradução é perturbadora. A péssima tradução poderia ser feita de forma limpa, clara, no entanto a tradução me lembrou Batman quando Robin grita Kawabanga e aqui foi traduzido como "Uh tererê". Durante todo o filme você vai escutar gírias cariocas e outras expressões brasileiras como "vamos nessa", "sujou", "filhinha, este é meu video", "meu querido", "chocante", "manero", "beleza", entre outras.  Isso é um grande erro até por que gírias são organismos vivos, daqui a cinco anos os adolescentes vão querer ver o filme e não vão entender. Opte por coisas neutras e seu trabalho se torna atemporal e menos ridículo. Por isso existem as dublagens toscas que vemos hoje na TV, de filmes como De Volta para o Futuro, tudo refeito. Saudade das dublagens clássicas...

Apesar da raiva de ter meus dois primeiros parágrafos apagados pelo Blogger (blogspot) por erro de sistema do Google, esta foi uma tentativa de replicar os dois primeiros parágrafos deste texto de atualização. É complicado quando você desenvolve uma linha de pensamento e os responsáveis pelo sistema não criam um mecanismo eficiente de backup que salve o seu texto em casos de crash no servidor ou erros de desenvolvimento.


2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom mesmo. Enredo interessante, efeitos excelentes. Inclusive o 3d é um espetáculo a parte! a gente se sente dentro do filme. Logo no início, quando aparece a cena dos engenheiros flutuando naquela cápsula, dava uma impressão real de que o cara não estava na tela do cinema, mas sim do outro lado do "vidro" ali na nossa frente, ainda mais que esta cena calhou de o personagem ficar em tamanho natural!

Sobre o Kinoplex, o cara que teve a idéia de mudar o cinema do shopping tijuca lá para cima no g4, o andar inteiro só de cinema, com uma porrada de sala e longe da munvucada do shopping está de parabéns! Este sim merece um Oscar! Inclusive as instalações de altíssimo nível: Além das salas 3d, os terminais eletrônicos para comprar os ingressos sem fila.

Voltando a falar do filme em si, tirando alguns clichés como você mesmo postou, como o beijo (isso é um comportamento cultural do homem, não instintivo, portanto não tinha como outra espécie fora do planeta conhecer.). É diferente de um sorriso por exemplo; este sim é um comportamento instintivo.

Aquele bicho grande que parecia um elefante, que correu atrás do Jake, esse tinha EXATAMENTE o mesmo grito do Spinossauro de Jurassic Park 3. Os lobos menores tinham aquele "espirro" do Velociraptor!

Por falar em 3d e Jurassic Park, o quão fantástico seria essa combinação, hein?

Enfim, de resto concordo com tudo que está escrito. Que venha o Avatar 2!

Leandro Muniz.

Guimarães disse...

Valeu mesmo!
na dúvida entre assirtia de dia a versão dublada com mais opções de salas e talz.. vc me convenceu a pegar a única sessão legendada para minha cidade, lá por 22hs15.
Hélio
Ponta Grossa PR

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