Gostar de Fazer vs. Trabalhar

sábado, outubro 25, 2008

Quando eu estava no segundo grau vi muitas pessoas que não sabiam o que fazer, alguns que faziam alguma idéia e outros que tinham plena certeza. Hoje em dia vejo que passar por vários cursos universitários nos 3 primeiros anos depois do segundo grau é uma opção muito boa para quem quer escolher a profissão, inclusive você pode assistir aulas em universidades federais e estaduais sem estar inscrito. Mas este não é o tema de hoje.

O tema de hoje é a sua escolha, aquilo que você gosta, aquilo que você quer fazer. Eu sou designer por profissão, mas posso dizer que sou ilustrador e jornalista por vocação (nunca fiz jornalismo mas se gosto de escrever, poderia ter escolhido este caminho). Ainda no meu colégio, havia um amigo que queria fazer Belas Artes de qualquer jeito por que gostava de desenhar. Eu acabei convencendo-o a fazer Programação Visual, mas a questão é, aquilo que você gosta de fazer, não necessariamente vai ser aquilo com o que você vai gostar de trabalhar!

Não adianta você gostar de desenhar e achar que vai ser artista, designer ou arquiteto, não adianta gostar de filmes de tribunal e querer ser advogado, não adianta fazer engenharia mecânica achando que vai fazer robô, não adianta fazer veterinária por que gosta de animais, não adianta estudar letras por que gosta de ler, assim como não adianta fazer um curso por que tem as melhores oportunidades de concurso (até por que todos os seus colegas de profissão vão te considerar um incompetente que estudou só para o concurso). Você tem realmente que gostar de trabalhar com aquilo e não só gostar de ver, de fazer como hobby ou achar bonito ou "legal".

As profissões são muito mais do que isso. Entrar em um curso por que tem relação com o que você gosta de fazer no seu tempo livre pode te frustrar depois... Nas áreas criativas isto é ainda pior. É como diz Luli Radfahrer: "Se a questão financeira pesar, mas pesar muito, abandone a área. Você sempre poderá ser um bom advogado ou cirurgião plástico com uma coleção de belos quadros em casa". E isso pode ser expandido para quadros, livros e até os robôs. A diferença é que nas áreas criativas (como artes, ensino, publicidade, marketing e informática) todo mundo acha que "conhece" o seu trabalho e que sabe o quanto deve te pagar.

É por causa desta visão equivocada que todos se sentem na posição de avaliar a qualidade do seu conhecimento (mesmo que você não seja designer isso se aplica). Neste caso você deve mostrar no seu trabalho algo além do seu hobby, além do que você gosta de fazer no tempo livre, deve mostrar uma visão de mudança... Mas infelizmente, isso não vai te garantir um bom emprego (pelo contrário, as empresas brasileiras são "cabeças-dura", teimosas e de mente fechada). Ao investir em conhecimento conceitual e pesquisa, você se transforma em um talento, um multidisciplinar, um pesquisador nato, um inquieto, um descobridor, diferente do tecnocrata corporativo a que estamos acostumados.

Mas isso dá muito mais trabalho do que os cursos de design, direito, medicina, engenharia, arquitetura, infromática, etc, irão te mostrar nas salas de aula ou mesmo do que aqueles livros e documentários que você gosta de ler e ver. Até mesmo os autodidatas têm problemas com isso por não conseguirem organizar o seu pensamento, procurando muitas vezes se firmar fortemente em uma única idéia sobre ferramentas e técnicas da moda ao invés de procurar o conhecimento conceitual não atrelado à prática técnica (lembre-se técnicas passam, idéias ficam).

Vi muitos amigos da área de design se frustrarem com a profissão por que achavam que iam desenhar bastante e perceberam que isso era 10% do trabalho. Alguns são profissionais bem estabelecidos em programação, redes de computadores, atores, desenhistas de moda, marketing, tem até uma menina em medicina, mas muitos terminaram quase 5 anos de curso para depois pular para outra coisa diferente.

Por isso abram os olhos seja qual for a sua profissão! Você chega em casa estressado? Você não tem "saco" pra se atualizar ou cria empecilhos psicológicos de tempo e cansaço? Você pensa em fazer concurso ou ir pra uma empresa grande só por que é mais fácil trabalhar lá (ou não)? Pense bem... Repito, aquilo que você gosta de ver e fazer no tempo livre, não é necessariamente aquilo com que você vai gostar de trabalhar.

E trabalhar é viver todos os dias, a todo instante, o conhecimento, não o conhecimento técnico, mas o conceitual aplicado na prática. Você se preocupa em saber muitas técnicas de gestão, muitos softwares gráficos, muitas tecnologias, muitas técnica de cirurgias, decorar muitas leis? Você já está estressado e no caminho errado, e mais, esqueceu que a criatividade e o ser humano são as partes mais importantes da aceitação do seu trabalho.

Quando você realmente gosta do que você trabalha você vira um talento. E sim, ninguém contrata talentos no Brasil. Você tem grandes expectativas para sua carreira, não aceita salários baixos, contesta seus chefes (de uma forma amigável, mas muitos não gostam), briga pelas suas idéias, aceita conselhos até do porteiro (pois como profissional criativo, qualquer que seja sua área, acredita no ponto-de-vista de todos) e não está muito preocupado em correr para conseguir um emprego pois tem dezenas de contatos por fora.

E mais, a cada vez que você se atualiza isso piora pois as pessoas não querem pagar o que você vale e isto também abre margem para você cobrar o quanto quiser pois quando estes precisarem de você, você vai cobrar muito caro para manter-se durante algum tempo. Ou seja, o mercado de trabalho brasileiro criou uma relação com os profissionais altamente capacitados onde os dois lados saem perdendo.

As empresas acabam contratando o profissional "prostituto", o "sobrinho", que não faz um trabalho de qualidade mas ganha menos e não contesta, e por outro lado contrata consultores terceirizados que cobram caro. Essa é a grande diferença entre o Brasil e os países de 1º mundo. Eles pagam o quanto você vale e toda nova idéia é bem-vinda.

A verdade é que o talento tem horror ao chicote, a ficar preso, a trabalhar de 8 da manhã às 7 da noite (sem contar horas extras), a não poder visitar um museu, restaurante, praia ou fazer um curso no meio do dia durante a semana útil. O talento já muito adulto quer levar seus filhos na escola antes de trabalhar, quer pegá-los a noite, quer nadar, quer ir a academia, e quando você priva o talento de todas as coisas que criam o "ócio criativo" ou melhor, o relaxamento físico e mental, a satisfação da vida, ele simplesmente não produz ou não trás a qualidade de tudo que ele estudou para dentro da sua empresa (até mesmo por que certos ambientes de trabalho são claustrofóbicos, tensos, metódicos, com muitos conflitos e com pessoas com medo de serem passadas pra trás e que desconfiam de todos).

As empresas clássicas no Brasil, e a maioria das instituições ligadas ou não ao governo, ainda querem o profissional "adestrado", o tecnocrata que trabalha demais, que não vive, que não tem qualidade de vida, que dá o sangue pela empresa, que só estuda aquilo que é preciso para a empresa, que não é interdisciplinar, que não faz correlações com outras ãreas e que o dia que vacilar pode ser trocado.

A criatividade, inquietude, as boas idéias, o pesquisador nato (que quer testar coisas novas), o contestador, este não é bem visto, o que leva muitos bons profissionais frustrados a procurarem o serviço público, freelas, ou trabalhar no exterior pois têm garantia de um salário bom e não precisam se preocupar com ser mandado embora. A era da exploração vai acabar pois o talento brasileiro que não trabalha para o governo vai virar freelance, seja ele advogado, engenheiro, designer, arquiteto, etc.

Mas abrir os olhos do leitor não vai mudar esta situação. Uma coisa é um procedimento de trabalho, outro é quando o procedimento vira cultura, e esta imposição do mercado brasileiro já virou cultura... Até mesmo as empresas estrangeiras querem abrir suas filiais na América Latina pelo perfil do profissional que trabalha muito, ganha pouco, não contesta e é facilmente subsituido.

Da mesma forma que o brasileiro é associado ao sexo, samba, futebol, agora ele é reconhecido mundialmente como o profissional especializado que custa "baratinho"... E abram seus olhos empresas! Se essa cultura for perpetuada serão criados concorrentes em potencial que não têm nada a perder e são altamente capacitados. Não quis contratá-los? Agora é preciso concorrer com eles pelos mesmos clientes.

Existem 3 tipos de profissionais capacitados, os Game Changers, os Games Players e os Game blockers. Os Changers são inquietos, criativos e contestadores. Os Players são os tecnocratas que chegam na hora, saem na hora e só sabem aquilo que foram treinados para fazer.

Os Blockers são os pessimistas que apesar de sua formação acham que nada vai dar certo e só reclamam do emprego. O talento é um Changer, e "gostar de fazer no tempo livre" não vai te ajudar a ser um Changer e sim um Player, um Blocker. Lembre-se que pessoas como Bill Gates, Steve Jobs e Richard Branson não têm diploma, apenas boas idéias e uma irritação constante que os leva a mudar tudo e fazer de novo de uma forma diferente.

"I been working so hard
Keep punching my card
Eight hours, for what?
Oh, tell me what I got
I get this feeling
That time's just holding me down..."

- Kenny Logins (Footloose) -

Goste daquilo com que você trabalha, certifique-se que você sai de casa feliz e volta sorrindo, que você vê seus filmes, lê seus livros não-profissionais, leva seu filho na escola, dorme um pouco mais um dia no meio da semana, passeia sem compromisso, enfim, certifique-se que o trabalho faz parte de sua vida e não é só aquele lugar que você vai todo dia e desliga quando sai de lá.

Pergunte-se, onde você está? Está feliz na sua profissão? Conseguiria ser autônomo? Conseguiria dar uma virada e mudar de profissão? Quer fazer um concurso? Procure qualidade de vida! As possibilidades são infinitas, e por isso termino este texto com uma transcrição do filme Quem Somos Nós (odeio filmes e livros de auto-ajuda, mas esse dá pra engolir):

"Por quê continuamos a recriar a mesma realidade? Por quê continuamos tendo os mesmos relacionamentos? Por quê temos o mesmo tipo de emprego repetidamente? Neste mar infinito de possibilidades que existem à nossa volta, por que recriamos as mesmas realidades? Não é incrível que temos opções e potenciais existentes e não temos consciência deles?

É possível estarmos tão condicionados à nossa rotina, tão condicionados à forma como criamos nossas vidas, que compramos a idéia de que não temos controle algum sobre como direcioná-la? Fomos condicionados a crer que o mundo externo é mais real que o interno. É justamente ao contrário. O que acontece dentro de nós é que vai criar o que acontece lá fora. "

As pessoas querem te ensinar a ser feliz com as coisas que você não pode mudar. E eu afirmo você pode mudar sim, é só se empenhar para ter uma vida melhor e feliz.

Ilustrações de Bill Watterson

3 comentários:

*Patrícia* disse...

EXCELENTE texto. Estou passando por esta crise neste momento, crise que está acentuada neste domingo. Sorte a sua estar bem, eu não estou feliz, ou não estava, e não consigo me manter autônoma. Não sei o que fazer, mas sei do que gosto. Enfim. Coincidência ler seu texto hj? Nada... Obrigada.

Anônimo disse...

Fui a presentada ao seu Blog por uma amiga e dorei o seu texto e concordo muito com o que escreveu. As pessoas esquecem o sentido da vida e vivem sem perspectiva acordam, vão trabalhar, voltam pra casa e depois vão trabalhar no dia seguinte.
As relações de trabalho estão cada vez mais estranhas. E muitas vezes se quer ganhar mais independente do sacrifício que se faça por isso. Muito disso, ou quase tudo é motivado pelo desejo de consumo, de ter posses, vai além do viver bem. Pelo desejo por bens supérfluos as pessoas se ligam mais no ter do que no ser e não ficam felizes com o que têm e continuam querendo mais e mais. e por aí vai.... Parabéns!
Jaque

Ariane disse...

mais uma vez seus textos me fazendo pensar..
realmente quando um hobby, uma coisa que voc faz por diversão, que surge nas horas vagas, fica insuportável qdo se torna uma obrigação. E isso eu digo por experiência própria, fiz técnico em Design Gráfico por gostar de desenhar e criar nas horas de ócio (no ônibus, em casa, no bar..rsrs), e qdo isto virou uma obrigação, a criatividade some, o talento diminui por cançaso mental e isso fica bem mais acentuado msm qdo trata-se de artes e afins. Vejo nitidamente a diferença de uma pessoa que gosta somente de desenhar nas horas de ócio - como eu, de uma pessoa que gosta de desenhar, criar e direciona isso na sua vida com um propósito.

e essa frase me fez pensar muito:

'aquilo que você gosta de ver e fazer, não é necessariamente aquilo com que você vai gostar de trabalhar.'

mto obg novamente
ps.por esse motivo seu blog já fica no favoritos
um beeijo e parabéns

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